Quem Quer Ser Um Milionário?

Março 2, 2009 por fbarbanti

slumdog-posterQuem Quer Ser um Milionário?
(Slumdog Millionaire, 2008, EUA/Inglaterra)

Direção: Danny Boyle
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Madhur Mittal, Saurabh Shukla, Raj Zutshi, Jeneva Talwar, Irfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Sunil Aggarwal, Jira Banjara, Sheikh Wali, Mahesh Manjrekar, Sanchita Couhdary

Jamal Malik (o estreante Dev Patel) é um jovem que, em seus breves 18 anos de vida, já suportou mais sofrimento do que muitos não são obrigados a agüentar em toda uma vida. Nascido em uma miserável favela em Mumbai – algo que faria as nossas parecerem condomínios de luxo – ele perdeu sua mãe logo cedo e precisou se virar para sobreviver ao lado do irmão Salim (Madhur Mittal). Durante sua jornada, foi explorado, passou fome, assaltou turistas para sobreviver e, no processo, acabou perdendo a única pessoa importante para ele: a bela Latika (Freida Pinto).

Superadas as adversidades, Jamal hoje serve chá para atendentes de telemarketing e está participando de um concurso de perguntas e respostas que pode transformá-lo no primeiro milionário a sair do programa. A integridade de sua participação é colocada em cheque quando chega na fase final, estágio onde nem médicos e advogados haviam chegado antes. Sob suspeita de fraude, o jovem é enviado a uma delegacia de polícia onde é torturado e questionado sobre a origem de tanto conhecimento. Ao narrar sua história, fica claro que todas as respostas que forneceu durante o programa estão explicadas em sua tortuosa trajetória.

slumdog-1A história que conta é recheada de elementos dignos dos mais lacrimejantes dos melodramas. Mas o que surpreende é que Danny Boyle não se apega a esse sofrimento para construir uma história densa e sombria. Pontuado por um otimismo exacerbado e constante, o diretor inglês opta por elaborar uma pequena fábula, como as que Charles Dickens fez em Oliver Twist e David Copperfield, onde o importante não é o sofrimento e sim a fé que nos faz superá-lo. O resultado é uma pequena celebração à vida que já rendeu inúmeras premiações, inclusive o Oscar de melhor filme, e uma bilheteria surpreendente em território americano, principalmente por se tratar de um filme falado boa parte em híndi, um dos vários dialetos indianos.

Não demorou muito para que alguns rabugentos de plantão lançassem protestos alegando este ser uma cópia de Cidade de Deus. A comparação é cabível, não só pelo fato de ambos retratarem a pobreza e a violência de um país do terceiro mundo, mas também por terem a mesma linguagem cinematográfica, como a câmera inquieta que persegue seus personagens de forma frenética ou a coloração levemente desbotada de sua fotografia. Além disso, esses mesmos chatos reclamam do tratamento pop dado à miséria e à pobreza, acusações que o filme brasileiro também sofreu em seu lançamento. Só que o que todos esses críticos não parecem perceber é o otimismo arraigado nas entrelinhas dessa bela história. O povo da Índia, em nenhum momento, é retratado como um povo amargurado por esse sofrimento. Pelo contrário. Sua inocência e sua fé são tão comoventes que o nosso único sentimento durante a projeção é o de uma alegria contagiante.

slumdog-2Slumdog Millionaire também foi acusado de ser manipulativo pela forma como abusa da glicose em alguns momentos. Mais uma vez, a acusação tem lá seu fundamento, mas o filme é realizado com tanta honestidade que não nos sentimos manipulados. Ou, o que é melhor ainda, queremos essa manipulação. O filme ainda tira proveito do instante singular que a Índia atravessa, onde a tradição ancestral e o desenvolvimento econômico entram em colisão e transformam essa nação em um mistério fascinante.

Mas será que esse filme merece o Oscar de melhor do ano? Um conto de fadas pós-moderno recheado de otimismo e fé? Essa, afinal, é a pergunta de um milhão de reais. O que se sabe é que o Oscar, há anos, deixou de ser um prêmio meramente técnico, onde os melhores ganham sempre. Existe um fator político exercendo influências sobre as decisões de quem deve ser premiado. E essa influência acaba servindo de retrato da atual situação que vivem os Estados Unidos. Diante de um desafio assustador de recuperar uma economia em declínio e de um presidente que representa a esperança de um futuro melhor, otimismo e fé talvez sejam exatamente o que os americanos mais precisem nesse momento.

O Lutador

Fevereiro 13, 2009 por fbarbanti

wrestler-posterO Lutador
(The Wrestler, 2008, EUA)

Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Toddy Barry, Wass Stevens, Judah Friedlander

É impossível falar de O Lutador sem, ao mesmo tempo, falar de Mickey Rourke. Ator consagrado da década de 80, considerado por muitos como o próximo Marlon Brando, o astro se perdeu nos anos seguintes e caiu no esquecimento do público. Ele atingiu o fundo do poço quando precisou viver de favores dos poucos amigos que ainda lhe restavam. Depois de quase vinte anos de anonimato, ele retorna aos holofotes com um personagem que simboliza toda a sua trajetória até então. E a volta não poderia ser mais triunfal.

Rourke vive o lutador Randy Robinson, um homem que atingiu o auge de sua carreira quando conquistou o cinturão de sua categoria no início da década de 80. Vinte anos se passaram e ele continua sobrevivendo através da luta, mas em eventos de menor expressão e com um retorno mais humilde. Para completar a renda, trabalha em um supermercado fazendo um pouco de tudo. Nas horas vagas, freqüenta um strip club onde conquista a amizade da dançarina Cassidy (Marisa Tomei, esbanjando boa forma aos 45 anos de idade).

wrestler-1Depois de uma luta um pouco mais sangrenta do que o habitual, Randy sofre um ataque cardíaco e vai parar no hospital com uma ponte de safena como lembrança. Durante o período de recuperação, Randy percebe que tem uma vida vazia e solitária e tenta resgatar as poucas pessoas que ainda fazem parte de seu cotidiano. Entre elas está a rebelde Stephanie (Evan Rachel Wood), filha de Randy que foi abandonada pelo brutamontes ainda criança e que teve pouco contato com o pai durante sua vida. Mas a pressão dos fãs e a dificuldade de se relacionar com as pessoas fora de seu universo servem de estopim para que ele tente se aventurar novamente nos ringues.

O Lutador é um filme feito sob medida para que Rourke mostre todo seu talento que permaneceu escondido nesses anos todos. Não há praticamente uma cena sequer em que não esteja presente, e o ator segura a onda com extrema habilidade. Em grande parte das cenas, nem precisa falar nada. Seu rosto marcado pelas cicatrizes que a vida lhe impôs é o suficiente para que o espectador sinta o sofrimento dessa alma perturbada. E, ao contrário da maioria dos astros que permaneceram na ativa durante esse período, Rourke aborda seu personagem de forma limpa, sem vícios e maneirismos. Rourke é autêntico. Rourke é único. Rourke é Randy.

wrestler-2É claro que nada disso funcionaria sem uma direção correta. Depois de surpreender o mundo com o estranho Pi e o angustiante Réquiem para um Sonho, e decepcionar com o insosso A Fonte da Vida, o americano Darren Aronofsky volta a mostrar porque está no time dos melhores diretores da atualidade. Com uma mão leve e um controle invejável de seus atores, ele constrói uma história honesta e comovente, sem cair na pieguice. Em uma cena em particular, o diretor traça um paralelo entre a vida como atendente de supermercado e a de um lutador profissional de forma extremamente criativa. Minha única ressalva vai para o fim muito apoteótico, que não condiz com a simplicidade que exala durante o resto da projeção.

Todas as bancas de apostas apontam Rourke como o favorito para arrebatar o prêmio de melhor ator do ano. Se vier, a premiação é mais do que merecida. Não só pela inquestionável qualidade de sua atuação, mas também por toda sua trajetória para chegar até esse momento. Na cena mais comovente de O Lutador, Rourke se desculpa para a filha argumentando que não quer que ela o odeie. É um pedido de socorro não só de um pai buscando o amor de sua filha, mas também de um ator que quer se redimir com sua platéia.

O Traidor

Fevereiro 12, 2009 por fbarbanti

traidor-posterO Traidor
(Traitor, 2008, EUA)

Direção:  Jeffrey Nachmanoff
Elenco: Don Cheadle, Guy Pearce, Said Taghmaoui, Neal McDonough, Jeff Daniels, Alyy Khan, Archie Panjabi, Raad Rawi

Marketing é hoje um aspecto fundamental para o sucesso comercial de uma produção cinematográfica. Sem a devida divulgação, até mesmo os filmes mais qualificados estariam condenados ao anonimato. Quem perde é o público que se deixa levar pelas promessas grandiosas dos arrasa-quarteirões hollywoodianos e ignora pequenas pérolas que se escondem entre um mega-lançamento e outro. O Traidor, apesar do pouco alarde que causou durante seu lançamento, é uma dessas obras ímpares que surpreendem a cada instante e que nos faz perguntar o motivo de não receber um reconhecimento maior do público.

O sempre eficiente Don Cheadle, de Crash – No Limite e Onze Homens e um Segredo, interpreta o muçulmano Samir Horn. Durante uma operação onde tenta vender um carregamento de explosivos para um grupo de extremistas, ele é preso pelo FBI e colocado em uma prisão no Iêmen. Lá, ele faz amizade com um líder terrorista que o ajuda a fugir da cadeia e que lhe oferece uma vaga em sua facção. Enquanto planeja um ataque de extrema ousadia em solo americano, Samir precisa despistar os agentes que estão em sua cola, liderados pelo obstinado Roy Clayton (Guy Pearce, de Los Angeles – Cidade Proibida e Amnésia).

traidor-11O que torna O Traidor um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir é que, em uma certa altura do roteiro, descobrimos que Samir já trabalhou para o governo americano antes de desaparecer do mapa. Instala-se então na mente do espectador uma atmosfera de dúvida constante, onde nunca se sabe ao certo para que lado Samir está trabalhando. Ainda mais quando parece nutrir pelo terrorista Omar (Said Taghmaoui) um genuíno sentimento de amizade.

Essa amizade, por sinal, acaba servindo como uma válvula de escape para que o espectador possa entender o outro lado da história. Em um confronto, há sempre dois pontos de vistas distintos, cada um com sua própria lógica. Além de dar espaço para que os vilões manifestem suas visões, O Traidor faz questão de mostrá-los como seres humanos, sujeitos às mesmas fraquezas que todos nós. É claro que ainda são vilões. Mas, ao final da projeção, os entendemos melhor.

traidor-2Para minha surpresa, os créditos de roteiro incluem o nome do comediante Steve Martin, mais conhecido como Inspetor Clouseau da nova série A Pantera Cor-de-Rosa. É difícil acreditar que um nome mais comum dentro do universo cômico possa ser o criador de uma história tão tensa e dinâmica. Mas a verdade é que O Traidor não pára em nenhum momento, mantendo um clima de eterno suspense até os momentos finais. E a forma como o roteiro resolve sua trama é de uma inventividade extrema. Além disso, o filme ainda revela um lado crítico em relação à política americana quando o assunto é a luta contra o terrorismo. Na ânsia de capturar seu inimigo, ambas as partes não medem esforços para atingir seu objetivo, mostrando que não existe muita diferença entre os dois.

Don Cheadle mostra em O Traidor que é ator o suficiente para segurar um filme sozinho. Coadjuvante constante de grandes produções, Cheadle brilha como um homem perturbado à procura de um significado para sua vida. Ele é mais uma vítima inocente dessa guerra que não encontra limites. E, mais trágico do que ser o integrante de um confronto sem sentido, é descobrir, ao final dele, que não há um lar para poder voltar.

O Leitor

Fevereiro 10, 2009 por fbarbanti

leitor-posterO Leitor
(The Reader, 2008, EUA/Alemanha)

Direção: Stephen Daldry
Elenco: David Kross, Ralph Fiennes, Kate Winslet, Lena Olin, Bruno Ganz, Jeanette Hain, Hannah Herzsprung

Em uma das cenas mais marcantes de O Leitor, uma perplexa Hanna Schmitz (Kate Winslet, no auge de seu talento) é interrogada por um juiz que questiona a veracidade das acusações de ter escolhido dez mulheres para serem transportadas para o campo de Auschwitz, onde posteriormente foram assassinadas. Sua resposta é honesta e contundente, “O que você teria feito?”. A ausência de uma resposta convincente por parte do acusador surge como uma prova de que a atribuição de culpa é uma tarefa árdua de se aplicar.

A Alemanha pós-guerra é um país mergulhado na vergonha dos atos cometidos durante a era Hitler. Em um polêmico julgamento em que seis acusadas respondem por crimes considerados hediondos pela nova geração, fantasmas saem do armário para assombrar uma nação marcada pelo passado. Em um discurso ideológico, um jovem estudante de direito declara que seus antepassados deveriam ter cometido suicídio em vez de cumprir ordens tão desumanas. Mas será que isso é uma visão realista? Não para Hanna, que não se envergonha de admitir seus atos, por mais incompreensíveis que eles pareçam.

leitor-1Não que ela não carregue uma vergonha dentro de si. Mas esse segredo que guarda a sete chaves, preferindo enfrentar as piores conseqüências em vez de revelá-lo, não diz respeito a uma falha de caráter ou de julgamento. Ele é de origem mais humilde, mais humana. E o único capaz de salvar a vida dessa atormentada alma é o jovem Michael Berg (o talentoso David Kross), estudante de direito que, anos antes, tivera um tórrido romance com a acusada.

A iniciação sexual se deu quando ainda tinha apenas dezesseis anos de idade, enquanto Hanna já beirava os quarenta. As escapadelas sexuais eram alternadas por sessões literárias, onde Michael lia para a sua amada as mais diversas obras da literatura mundial. Como tudo que arde como chama, o caso chega ao fim depois de um tempo e Michael carrega a dor do abandono pelos anos que se seguem. Quando se depara com Hanna novamente – e, consequentemente, seus crimes – Michael não consegue esconder sua revolta que, junto com o amor que ainda nutre pela acusada, o deixa sem rumo. A decisão que toma vem acompanhada de uma culpa inclemente que carregará pelo resto da vida.

leitor-2A princípio, O Leitor funciona como uma envolvente história de amor entre duas pessoas marcadas pela vergonha. Mesmo quando fica mais velho, Michael (agora vivido pelo sempre correto Ralph Fiennes) não consegue esquecer a influência que Hanna exerceu sobre sua vida. No entanto, insiste em esconder esse sentimento em alguma gaveta empoeirada de seu coração, com medo do que o mesmo possa significar em relação ao seu caráter. Sua impossibilidade de abordar o assunto o afastou de sua esposa e até de sua filha, transformando-o em uma pessoa apática e infeliz.

Mas O Leitor também funciona como um ensaio sobre a culpa. Não só daqueles que, como Hanna, participaram de atos atrozes que envergonharam uma nação. Ou então daqueles que preferiram fechar os olhos para o que estava acontecendo sob a esperança de que, desde que não participassem efetivamente da ação, estariam isentos de responsabilidade. Mas a culpa também de uma geração que precisou colher as sementes plantadas por seus antepassados. Uma geração que herdou da guerra uma imagem difícil de ser apagada. E que guarda dentro de si o medo de que um dia possa sofrer a mesma desumanização que hoje é o motivo de tanta vergonha.

Dúvida

Fevereiro 6, 2009 por fbarbanti

duvida-posterDúvida
(Doubt, EUA, 2008 )

Direção: John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Lloyd Clay Brown, Joseph Foster

Em 1964, a escola de St. Nicholas é atacada por uma rajada de vento que assombra as freiras do local, principalmente a madre superiora, a irmã Aloysius (Meryl Streep, que concorre a seu 15º prêmio da Academia por esse papel). Mais do que um simples fenômeno meteorológico, essa alteração climática representa a atmosfera de mudança que a Igreja Católica está prestes a enfrentar. Diante da chegada de um novo papa, reformista por natureza, os religiosos mais conservadores estão inseguros em relação ao futuro de sua fé.

O único que parece não se incomodar com o esse clima de incerteza é o bem-humorado padre Flynn (Philip Seymour Hoffman, do premiado Capote). Durante o sermão que administra logo no começo do filme, há uma mensagem de otimismo escondida em suas palavras. Ele não tem medo do que o futuro lhe reserva e tenta compartilhar de sua segurança com seus fiéis, deixando claro que eles não estão sozinhos. O discurso chama a atenção da madre superiora que, enquanto destila seu espírito ditatorial durante uma caminhada pela igreja, detecta no jovem pároco um carisma que a ela lhe falta.

A década de 1960 também foi um período de mudanças sociais, principalmente no que diz respeito à integração racial. A escola de St. Nicholas, predominantemente branca, recebe seu primeiro aluno negro, o inocente Donald Miller (Joseph Foster). A chegada do jovem é recebida com ressalvas, fazendo com que o mesmo se sinta isolado em relação aos outros alunos da escola. Mas o garoto ganha um aliado de peso na pele do padre Flynn, que parece mostrar um interesse especial pelo rapaz.

duvida-1O interesse não passa despercebido pelos olhos da ingênua irmã James (Amy Adams, de Encantada) que compartilha suas suspeitas com a amargurada irmã Aloysius. Certa de que está diante de um caso de abuso sexual, a madre não sossegará enquanto não obter a confissão de seu réu. Para isso, ela é capaz de qualquer coisa, mesmo que tenha que quebrar seus princípios mais enraizados. Não se sabe ao certo o que move essa obsessão: pode ser uma preocupação legítima pelo bem estar do garoto, pode ser um ciúme incontrolável da popularidade do padre ou até mesmo um ódio proveniente de sua rejeição às idéias reformistas do mesmo.  Na minha opinião, é uma mistura dos três.

A irmã Aloysius não é uma pessoa má. Percebe-se, por exemplo, a proteção que exerce sobre uma freira mais velha, que está ficando cega. Mas, por mais que se eleve essas figuras religiosas a patamares mais elevados, eles são, no final das contas, seres humanos como qualquer outro, sujeitos aos mesmos sentimentos mortais que todos nós. Existe um turbilhão de emoções diversas movimentando os atos da irmã, que se esconde por trás de sua certeza para atormentar a vida do jovem vigário.

Personagem que, por sinal, não exala muita credibilidade quando confrontado com as acusações. Graças a uma interpretação precisa de Hoffman, existe um constante ar de incerteza pairando sobre as mentes do espectador, algo essencial para que o filme atinja seu objetivo. O alvo aqui não é se entregar a discursos morais ou até mesmo apontar dedos acusativos a instituições religiosas, e sim mostrar como nosso julgamento é facilmente influenciado por questões subjetivas. Aqueles que simpatizarem com o misterioso padre, ansiarão por sua inocência, enquanto o resto torcerá por sua culpa e punição.

duvida-2É difícil acreditar que a mesma mente que concebeu o insosso Joe Contra o Vulcão, comédia dispensável que marcou o primeiro trabalho entre os atores Tom Hanks e Meg Ryan, poderia estar por trás de uma obra tão complexa. Sem nunca explicitar de maneira verborrágica os sentimentos de seus personagens, ele constrói um angustiante retrato sobre o relacionamento de pessoas de pontos de vista distintos. Como acontecia na Esparta antiga, aquele que grita mais alto ganha o argumento, mas nem sempre está certo.

No momento mais forte desse filme, madre superiora confronta a mãe do garoto (Viola Davis, em aparição única, mas magistral) com suas suspeitas. A reação a princípio inexplicável da Sra. Miller se revela, mais tarde, uma das maiores provas de amor que uma mãe pode ter por um filho. A impressão que fica é que todos querem o bem estar do garoto, mas ninguém sabe ao certo como consegui-lo.  Afinal, não há vilões ou mocinhos nessa história. Apenas dúvida e certeza.