Quem Quer Ser um Milionário?
(Slumdog Millionaire, 2008, EUA/Inglaterra)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Madhur Mittal, Saurabh Shukla, Raj Zutshi, Jeneva Talwar, Irfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Sunil Aggarwal, Jira Banjara, Sheikh Wali, Mahesh Manjrekar, Sanchita Couhdary
Jamal Malik (o estreante Dev Patel) é um jovem que, em seus breves 18 anos de vida, já suportou mais sofrimento do que muitos não são obrigados a agüentar em toda uma vida. Nascido em uma miserável favela em Mumbai – algo que faria as nossas parecerem condomínios de luxo – ele perdeu sua mãe logo cedo e precisou se virar para sobreviver ao lado do irmão Salim (Madhur Mittal). Durante sua jornada, foi explorado, passou fome, assaltou turistas para sobreviver e, no processo, acabou perdendo a única pessoa importante para ele: a bela Latika (Freida Pinto).
Superadas as adversidades, Jamal hoje serve chá para atendentes de telemarketing e está participando de um concurso de perguntas e respostas que pode transformá-lo no primeiro milionário a sair do programa. A integridade de sua participação é colocada em cheque quando chega na fase final, estágio onde nem médicos e advogados haviam chegado antes. Sob suspeita de fraude, o jovem é enviado a uma delegacia de polícia onde é torturado e questionado sobre a origem de tanto conhecimento. Ao narrar sua história, fica claro que todas as respostas que forneceu durante o programa estão explicadas em sua tortuosa trajetória.
A história que conta é recheada de elementos dignos dos mais lacrimejantes dos melodramas. Mas o que surpreende é que Danny Boyle não se apega a esse sofrimento para construir uma história densa e sombria. Pontuado por um otimismo exacerbado e constante, o diretor inglês opta por elaborar uma pequena fábula, como as que Charles Dickens fez em Oliver Twist e David Copperfield, onde o importante não é o sofrimento e sim a fé que nos faz superá-lo. O resultado é uma pequena celebração à vida que já rendeu inúmeras premiações, inclusive o Oscar de melhor filme, e uma bilheteria surpreendente em território americano, principalmente por se tratar de um filme falado boa parte em híndi, um dos vários dialetos indianos.
Não demorou muito para que alguns rabugentos de plantão lançassem protestos alegando este ser uma cópia de Cidade de Deus. A comparação é cabível, não só pelo fato de ambos retratarem a pobreza e a violência de um país do terceiro mundo, mas também por terem a mesma linguagem cinematográfica, como a câmera inquieta que persegue seus personagens de forma frenética ou a coloração levemente desbotada de sua fotografia. Além disso, esses mesmos chatos reclamam do tratamento pop dado à miséria e à pobreza, acusações que o filme brasileiro também sofreu em seu lançamento. Só que o que todos esses críticos não parecem perceber é o otimismo arraigado nas entrelinhas dessa bela história. O povo da Índia, em nenhum momento, é retratado como um povo amargurado por esse sofrimento. Pelo contrário. Sua inocência e sua fé são tão comoventes que o nosso único sentimento durante a projeção é o de uma alegria contagiante.
Slumdog Millionaire também foi acusado de ser manipulativo pela forma como abusa da glicose em alguns momentos. Mais uma vez, a acusação tem lá seu fundamento, mas o filme é realizado com tanta honestidade que não nos sentimos manipulados. Ou, o que é melhor ainda, queremos essa manipulação. O filme ainda tira proveito do instante singular que a Índia atravessa, onde a tradição ancestral e o desenvolvimento econômico entram em colisão e transformam essa nação em um mistério fascinante.
Mas será que esse filme merece o Oscar de melhor do ano? Um conto de fadas pós-moderno recheado de otimismo e fé? Essa, afinal, é a pergunta de um milhão de reais. O que se sabe é que o Oscar, há anos, deixou de ser um prêmio meramente técnico, onde os melhores ganham sempre. Existe um fator político exercendo influências sobre as decisões de quem deve ser premiado. E essa influência acaba servindo de retrato da atual situação que vivem os Estados Unidos. Diante de um desafio assustador de recuperar uma economia em declínio e de um presidente que representa a esperança de um futuro melhor, otimismo e fé talvez sejam exatamente o que os americanos mais precisem nesse momento.
O Lutador
Depois de uma luta um pouco mais sangrenta do que o habitual, Randy sofre um ataque cardíaco e vai parar no hospital com uma ponte de safena como lembrança. Durante o período de recuperação, Randy percebe que tem uma vida vazia e solitária e tenta resgatar as poucas pessoas que ainda fazem parte de seu cotidiano. Entre elas está a rebelde Stephanie (Evan Rachel Wood), filha de Randy que foi abandonada pelo brutamontes ainda criança e que teve pouco contato com o pai durante sua vida. Mas a pressão dos fãs e a dificuldade de se relacionar com as pessoas fora de seu universo servem de estopim para que ele tente se aventurar novamente nos ringues.
É claro que nada disso funcionaria sem uma direção correta. Depois de surpreender o mundo com o estranho Pi e o angustiante Réquiem para um Sonho, e decepcionar com o insosso A Fonte da Vida, o americano Darren Aronofsky volta a mostrar porque está no time dos melhores diretores da atualidade. Com uma mão leve e um controle invejável de seus atores, ele constrói uma história honesta e comovente, sem cair na pieguice. Em uma cena em particular, o diretor traça um paralelo entre a vida como atendente de supermercado e a de um lutador profissional de forma extremamente criativa. Minha única ressalva vai para o fim muito apoteótico, que não condiz com a simplicidade que exala durante o resto da projeção.
O Traidor
O que torna O Traidor um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir é que, em uma certa altura do roteiro, descobrimos que Samir já trabalhou para o governo americano antes de desaparecer do mapa. Instala-se então na mente do espectador uma atmosfera de dúvida constante, onde nunca se sabe ao certo para que lado Samir está trabalhando. Ainda mais quando parece nutrir pelo terrorista Omar (Said Taghmaoui) um genuíno sentimento de amizade.
Para minha surpresa, os créditos de roteiro incluem o nome do comediante Steve Martin, mais conhecido como Inspetor Clouseau da nova série A Pantera Cor-de-Rosa. É difícil acreditar que um nome mais comum dentro do universo cômico possa ser o criador de uma história tão tensa e dinâmica. Mas a verdade é que O Traidor não pára em nenhum momento, mantendo um clima de eterno suspense até os momentos finais. E a forma como o roteiro resolve sua trama é de uma inventividade extrema. Além disso, o filme ainda revela um lado crítico em relação à política americana quando o assunto é a luta contra o terrorismo. Na ânsia de capturar seu inimigo, ambas as partes não medem esforços para atingir seu objetivo, mostrando que não existe muita diferença entre os dois.
O Leitor
Não que ela não carregue uma vergonha dentro de si. Mas esse segredo que guarda a sete chaves, preferindo enfrentar as piores conseqüências em vez de revelá-lo, não diz respeito a uma falha de caráter ou de julgamento. Ele é de origem mais humilde, mais humana. E o único capaz de salvar a vida dessa atormentada alma é o jovem Michael Berg (o talentoso David Kross), estudante de direito que, anos antes, tivera um tórrido romance com a acusada.
A princípio, O Leitor funciona como uma envolvente história de amor entre duas pessoas marcadas pela vergonha. Mesmo quando fica mais velho, Michael (agora vivido pelo sempre correto Ralph Fiennes) não consegue esquecer a influência que Hanna exerceu sobre sua vida. No entanto, insiste em esconder esse sentimento em alguma gaveta empoeirada de seu coração, com medo do que o mesmo possa significar em relação ao seu caráter. Sua impossibilidade de abordar o assunto o afastou de sua esposa e até de sua filha, transformando-o em uma pessoa apática e infeliz.
Dúvida
É difícil acreditar que a mesma mente que concebeu o insosso Joe Contra o Vulcão, comédia dispensável que marcou o primeiro trabalho entre os atores Tom Hanks e Meg Ryan, poderia estar por trás de uma obra tão complexa. Sem nunca explicitar de maneira verborrágica os sentimentos de seus personagens, ele constrói um angustiante retrato sobre o relacionamento de pessoas de pontos de vista distintos. Como acontecia na Esparta antiga, aquele que grita mais alto ganha o argumento, mas nem sempre está certo. 