Arquivo da categoria ‘Suspense’

Intrigas de Estado

Junho 30, 2009

Intrigas de Estado Poster

Intrigas de Estado
(State of Play, 2009, EUA)

Direção: Kevin Macdonald
Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis

Em um mundo marcado pela invasão da internet e suas formas variadas de difusão da informação, parece que não existe mais espaço para o bom e velho jornal. Afinal, por que esperar o dia seguinte para ler uma matéria que está há um clique de distância de seus olhos? O mesmo pode ser dito sobre o personagem de Russell Crowe em Intrigas de Estado. Quando as grandes estrelas dos meios de comunicação são os blogueiros que conseguem, com mais agilidade, estabelecer contato com uma quantidade maior de leitores, qual a serventia de um repórter investigativo que parece preso há um passado em que uma caneta era o único objeto que se precisava ter em mãos para escrever uma boa história?

Esse paralelo também pode ser traçado quando falamos de filmes como Intrigas de Estado. Em uma Hollywood onde o grande alarde vai para os filmes recheados de efeitos especiais, é difícil encontrar histórias que conseguem entreter o espectador sem ofender seu bom senso e seu bom gosto. Roteiros afiados com bons diálogos e uma trama envolvente parecem não ter mais mercado. E quando surgem, vêm como um sopro de ar fresco que resgata nossa esperança de que ainda existe vida inteligente na indústria cinematográfica.

Intrigas de Estado 1A trama de Intrigas de Estado gira em torno de uma investigação envolvendo a assistente de um congressista, interpretado por Ben Affleck – talvez o único grande erro de casting do filme – que é encontrada morta depois de um aparente suicídio. Rumores de um suposto caso amoroso entre o político e a assistente rondam os corredores do Congresso e o assunto acaba parando na mesa de Cal McAffrey (Russell Crowe, excelente como sempre), antigo amigo do congressista. Junto com uma repórter novata (Rachel McAdams), McAffrey inicia uma busca desenfreada para encontrar a verdade por trás da morte da moça, que pode envolver pessoas do mais alto escalão do governo americano.

Intrigas de Estado 2Baseado em uma aclamada minissérie britânica, Intrigas de Estado sofre com a árdua tarefa de resumir seis horas de material em duas horas de projeção. Principalmente em sua meia hora final, em que o filme parece acelerar há uma velocidade incoerente com o ritmo cadenciado que apresentara até então. Mesmo assim, é um filme envolvente, intrigante e repleto de pequenas reviravoltas que devem deixar o espectador satisfeito até o final. Além do mais, não dá para negar que é uma delícia assistir a uma produção que parece tentar resgatar o espírito dos clássicos filmes de jornalismo que marcaram os anos 70 e 80, como Todos os Homens do Presidente, Síndrome da China e Ausência de Malícia.

Durante os créditos finais, assistimos a uma sequência de imagens mostrando a arte por trás da publicação de um jornal. São imagens tão honestas e, ao mesmo tempo, tão obsoletas que beiram a poesia. São imagens que transmitem uma mistura de medo e saudades de uma época que não existe mais. São imagens que encontram paralelo em uma infinidade de outras situações do mundo atual. E talvez por isso, Intrigas de Estado seja um filme tão interessante. Exatamente por, assim como o jornal, resistir aos avanços tecnológicos e mostrar que a verdadeira qualidade do filme está em sua alma. Como já diria a personagem de Rachel McAdams em um determinado momento da trama, este é um filme para deixar marcas de tinta nas mãos daqueles que o assistem.

O Traidor

Fevereiro 12, 2009

traidor-posterO Traidor
(Traitor, 2008, EUA)

Direção:  Jeffrey Nachmanoff
Elenco: Don Cheadle, Guy Pearce, Said Taghmaoui, Neal McDonough, Jeff Daniels, Alyy Khan, Archie Panjabi, Raad Rawi

Marketing é hoje um aspecto fundamental para o sucesso comercial de uma produção cinematográfica. Sem a devida divulgação, até mesmo os filmes mais qualificados estariam condenados ao anonimato. Quem perde é o público que se deixa levar pelas promessas grandiosas dos arrasa-quarteirões hollywoodianos e ignora pequenas pérolas que se escondem entre um mega-lançamento e outro. O Traidor, apesar do pouco alarde que causou durante seu lançamento, é uma dessas obras ímpares que surpreendem a cada instante e que nos faz perguntar o motivo de não receber um reconhecimento maior do público.

O sempre eficiente Don Cheadle, de Crash – No Limite e Onze Homens e um Segredo, interpreta o muçulmano Samir Horn. Durante uma operação onde tenta vender um carregamento de explosivos para um grupo de extremistas, ele é preso pelo FBI e colocado em uma prisão no Iêmen. Lá, ele faz amizade com um líder terrorista que o ajuda a fugir da cadeia e que lhe oferece uma vaga em sua facção. Enquanto planeja um ataque de extrema ousadia em solo americano, Samir precisa despistar os agentes que estão em sua cola, liderados pelo obstinado Roy Clayton (Guy Pearce, de Los Angeles – Cidade Proibida e Amnésia).

traidor-11O que torna O Traidor um filme completamente diferente do que estamos acostumados a assistir é que, em uma certa altura do roteiro, descobrimos que Samir já trabalhou para o governo americano antes de desaparecer do mapa. Instala-se então na mente do espectador uma atmosfera de dúvida constante, onde nunca se sabe ao certo para que lado Samir está trabalhando. Ainda mais quando parece nutrir pelo terrorista Omar (Said Taghmaoui) um genuíno sentimento de amizade.

Essa amizade, por sinal, acaba servindo como uma válvula de escape para que o espectador possa entender o outro lado da história. Em um confronto, há sempre dois pontos de vistas distintos, cada um com sua própria lógica. Além de dar espaço para que os vilões manifestem suas visões, O Traidor faz questão de mostrá-los como seres humanos, sujeitos às mesmas fraquezas que todos nós. É claro que ainda são vilões. Mas, ao final da projeção, os entendemos melhor.

traidor-2Para minha surpresa, os créditos de roteiro incluem o nome do comediante Steve Martin, mais conhecido como Inspetor Clouseau da nova série A Pantera Cor-de-Rosa. É difícil acreditar que um nome mais comum dentro do universo cômico possa ser o criador de uma história tão tensa e dinâmica. Mas a verdade é que O Traidor não pára em nenhum momento, mantendo um clima de eterno suspense até os momentos finais. E a forma como o roteiro resolve sua trama é de uma inventividade extrema. Além disso, o filme ainda revela um lado crítico em relação à política americana quando o assunto é a luta contra o terrorismo. Na ânsia de capturar seu inimigo, ambas as partes não medem esforços para atingir seu objetivo, mostrando que não existe muita diferença entre os dois.

Don Cheadle mostra em O Traidor que é ator o suficiente para segurar um filme sozinho. Coadjuvante constante de grandes produções, Cheadle brilha como um homem perturbado à procura de um significado para sua vida. Ele é mais uma vítima inocente dessa guerra que não encontra limites. E, mais trágico do que ser o integrante de um confronto sem sentido, é descobrir, ao final dele, que não há um lar para poder voltar.

O Nevoeiro

Dezembro 8, 2008

mist-poster1O Nevoeiro
(The Mist, EUA, 2007)

Direção: Frank Darabont
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Toby Jones, William Sadler

O diretor Frank Darabont não é um daqueles cineastas que tem o nome automaticamente reconhecido pelos freqüentadores de cinema, mas é o responsável por uma obra que, mesmo depois de quinze anos de sua concepção, ainda desperta o interesse dos cinéfilos de plantão. Para os que não sabem do que estou falando, me refiro a Um Sonho de Liberdade, pequena obra-prima americana que se transformou em clássico automático entre os amantes do cinema. Adaptação de uma obra de Stephen King que mostra a relação de amizade entre dois presidiários enquanto tentam sobreviver sua pena, o filme recebeu indicações ao Oscar e arrecadou uma bela grana ao redor do globo.

A parceria Darabont/King rendeu mais uma bela adaptação no também premiado À Espera de um Milagre, filme que lançou o grandalhão Michael Clarke Duncan ao estrelato e que também colecionou elogios por onde se aventurou. Um longo hiato se passou, com o insosso Cine Majestic sendo realizado no intervalo, e Darabont retoma esse casamento que rendeu obras tão conceituadas. Mas agora, em vez de procurar trabalhos mais dramáticos do escritor, o cineasta resolveu investir no terror, gênero pelo qual King é mais reconhecido e que também resultou em obras memoráveis como O Iluminado e Carrie – A Estranha. O resultado é um filme de terror dirigido com extrema segurança e sobriedade que consegue, a partir de uma idéia absurda, traçar um panorama angustiante da natureza humana.

mist-1Tudo começa quando uma pequena cidade é invadida de forma inexplicável por um denso nevoeiro que traz com ele seres desconhecidos que vitimam, um a um, aqueles que se arriscam atravessá-lo. Os poucos sobreviventes se refugiam em um mercado local e passam a procurar algum tipo de explicação para o que está acontecendo. O filme sugere alguma influência de uma base militar instalada na região, mas a verdade por trás do incidente nunca fica clara.

A partir daí, inicia-se um embate entre uma grande diversidade de personalidades diferentes para exercer algum tipo de liderança entre os desesperados. Há uma fanática religiosa, que vê no acontecimento uma mensagem divina, o líder nato, interpretado com vigor pelo sempre competente Thomas Jane, os rebeldes que se recusam a escutar idéias que não venham de suas próprias mentes e assim por diante. Cada um deles serve como combustível para uma situação que está prestes a explodir e a frágil linha que segura esse relacionamento não demora a arrebentar.

mist-2O Nevoeiro é um filme B em toda sua essência. Monstros alados, criaturas asquerosas, ambiente claustrofóbico. Os ingredientes estão todos lá. A diferença é que este filme B em particular é realizado com extremo capricho. Sem as amarras que prendem grande parte das obras de Hollywood, Darabont teve espaço para compassar sua obra conforme sua necessidade. Há momentos de respiro, onde o suspense impera absoluto, há momentos de ação intensa, onde o desespero é o senhor da razão, há momentos de pura emoção, em que cada personagem mostra sua verdadeira identidade.

Mas o grande diferencial de O Nevoeiro está escondido em seu desfecho, um dos mais ousados e perturbadores que o cinema americano já concebeu.  Darabont é tão implacável em sua resolução que é quase impossível não arregalar os olhos com absoluta descrença diante de algo tão alarmante.

Não vá esperando o mesmo teor dos filmes anteriores de Darabont, mas se prepare para ser surpreendido. O Nevoeiro pode ser um filme B em espírito, mas é um filme B executado com extrema honestidade, sem grandes pretensões, que dá um banho em muitos monstrengos arrasa-quarteirões que invadem nossos cinemas todo o ano.

Red

Outubro 27, 2008

Red
(Red, EUA, 2008)

Direção: Trygve Allister Diesen, Lucky McKee
Elenco: Brian Cox, Noel Fisher, Tom Sizemore, Kyle Gallner, Shiloh Fernandez

“O passado é história, o futuro é mistério. O agora é uma dádiva. Por isso que o chamam de presente”. Essa pequena sabedoria proverbial resume a vida do solitário Avery Ludlow (Brian Cox), o dono de um armazém de uma pequena cidade que tem como único companheiro seu cachorro de 14 anos, o Red do título. Marcado por um acontecimento trágico que tenta esquecer e amargurado pela falta de perspectiva no final de sua vida, só lhe resta o hoje.

Ele acorda uma bela manhã e decide que quer pescar. Ele entrega o armazém para os cuidados de uma amiga, prepara seu equipamento, convoca o fiel escudeiro e parte para um dos poucos prazeres que ainda possui. Sua tranqüilidade é interrompida quando três jovens abordam o velho e tentam roubá-lo. Como não tem nenhum dinheiro com ele, os rapazes resolvem descontar sua frustração no pobre cachorro. Avery, que achava que já não existia mais nenhuma surpresa reservada em seu futuro, volta a sofrer a dor de uma perda. E, novamente, a dor vem pelas mãos de um jovem perturbado, anestesiado pelo tédio de uma vida sem propósito.

Mais do que vingança, Avery quer justiça. Sua revolta se deve mais pelas risadas emitidas por seus agressores depois do ocorrido do que pela perda em si. Ele quer que tenham consciência do sofrimento que provocaram e que demonstrem arrependimento pelo que fizeram. A sede por sangue vem depois, com a impunidade. A constatação de que a justiça não será aplicada é mais forte do que Avery pode suportar. Inicia então uma obsessão com destino único para a tragédia. E a moeda tem dois lados, uma vez que na outra esfera, a teimosia também reina absoluta.

Experiência é um vocábulo abstrato que tentamos mensurar através da quantidade de anos que um determinado indivíduo passa nesse planeta. Mas a vida é mais complexa do que essa fútil tentativa de racionalização de um termo obscuro. Ela é uma unidade de causa e efeito. São as decisões que tomamos em nossa breve existência, e as conseqüências que elas acarretam, que definem o grau de experiência que adquirimos. Em uma semana, os personagens de Red obtiveram um aprendizado que muitas pessoas passam 50 anos para alcançar. Na próxima oportunidade, talvez sejam mais tolerantes, ou menos impulsivos. Acho que, muitas vezes, os grandes erros precisam ser recompensados, desde que com eles, venha o conhecimento.

Red me lembrou muito de um ótimo filme dirigido por Sam Raimi, que mais tarde se tornaria o cineasta por trás do Homem-Aranha, intitulado Um Plano Simples. Um incidente sem conseqüências aparentemente mais graves acaba se desenvolvendo em uma situação que beira o absurdo. Este não é um filme de suspense tradicional, mas a atmosfera é de tensão constante. Apesar de sua relativa lentidão, é difícil não se envolver com o emocionante conflito vivido por seus personagens. Principalmente Avery, que se depara no presente com fantasmas do passado que não o deixam descansar. Ele é a força por trás do roteiro do filme e conta com uma atuação magistral de um ator que passou a carreira se escondendo em papéis de menor expressão.

O veterano Brian Cox, eterno coadjuvante de filmes como A Supremacia Bourne e X-Men 2, brilha em uma interpretação que exala sinceridade e melancolia. Quando descreve para uma repórter o que aconteceu com sua esposa e filhos, a amargura de sua expressão deixa um nó na garganta até do mais insensível dos mortais. Seu olhar transparece tristeza em cada fotograma e sua dor ajuda a entender seu repentino desejo por vingança. Mas, se este é um prato que se come frio, em Red fica claro que ele também deixa o estômago vazio.

Na Mira do Chefe

Outubro 19, 2008

Na Mira do Chefe
(In Bruges, Reino Unido/Bélgica, 2008)

Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier, Thekla Reuten, Jordan Prentice

Vivemos a era da reciclagem. Com o prognóstico do fim do mundo cada vez mais próximo, a necessidade de reaproveitarmos os recursos ainda existentes aumenta exponencialmente. Infelizmente, o que era verdade apenas para metais, papéis e afins, hoje virou rotina também na indústria cinematográfica. Uma idéia original é um ítem precioso entre aqueles que querem se arriscar no mundo da sétima arte. Aqueles que a encontram, a protegem com extrema cautela e tentam espremer da mesma tudo o que ela tem para oferecer. Afinal, não se sabe nem quando nem se a próxima irá aparecer.

Pois marquem o nome de Martin McDonagh. Ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 2006 com o filme Six Shooter, ele marca a sua estréia como diretor de longas com um dos melhores filmes deste ano. Misturando na dose certa comédia, suspense e drama, ele constrói uma fábula deliciosamente inusitada sobre as aventuras de dois assassinos profissionais em uma pequena cidade do interior da Bélgica.

Colin Farrell vive o intrépido Ray, um aspirante a matador de aluguel que é enviado por seu chefe Harry (Ralph Fiennes), junto com o amigo Ken (Brendan Gleeson), à desconhecida cidade de Bruges depois de um serviço. O lugar é um recanto de turistas onde não se tem muito o que fazer a não ser ver monumentos medievais e passear de barco pelo canal que cruza a cidade. Para um integrante de velha guarda como Ken, a experiência pode se tornar algo relaxante. Mas para o espírito inquieto de um jovem irlandês como Ray, o tédio que o lugar exala é o equivalente a uma viagem sem volta para o inferno. Enquanto esperam ordens de seu empregador, os dois passeiam pelos pontos turísticos, fazem amizades e inimizades com os mais diversos tipos – inclusive um anão -  e até se arriscam no amor.

A capacidade de McDonagh de encontrar lógica e racionalidade nos elementos mais bizarros é assustadora. Tudo em In Bruges – me recuso a utilizar a péssima tradução brasileira – tem um propósito. Até mesmo aquelas cenas que parecem completamente injustificadas e gratuitas acabam fazendo sentido no final. Com o desenrolar da trama, a estranheza inicial dá lugar a um sorriso irreverente que se diverte com a constatação de que está diante de uma obra diferente. Uma obra que não tem medo de subverter alguns conceitos pré-determinados do público em troca de uma dose excessiva de originalidade.

A grata surpresa fica por conta da presença do pseudo-galã Colin Farrell nesta modesta produção, que não faz frente aos diversos filmes que já participou durante seu período em Hollywood. Depois de surpreender com uma atuação comovente no ótimo O Sonho de Cassandra, de Woody Allen, o ator irlandês volta a mostrar seu talento no papel do inexperiente e atormentado Ray. Mesmo nos momentos mais extrovertidos, ele demonstra uma certa amargura no olhar. E o eterno coadjuvante Brendan Gleeson nos brinda com um de seus melhores trabalhos na pele de um homem cansado de viver lado a lado com a morte e que encontra na cidade desconhecida seu momento mais terno.

In Bruges é um filme que beira a utopia. Ele é um filme em que os criminosos têm princípios, os assassinos têm consciência, as imagens possuem uma pitada de bucolismo e o amanhã vem recheado com a esperança de um novo começo. Passeando entre o céu e o inferno, é em Bruges que cada personagem descobre para qual dos dois está destinado.