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No Vale das Sombras

Dezembro 30, 2008

valley-of-elah-posterNo Vale das Sombras
(In The Valley of Elah, EUA, 2007)

Direção: Paul Haggis
Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, James Franco, Josh Brolin, Susan Sarandon, Jason Patric, Jonathan Tucker, Josh Meyer

Um certo ar de anacronismo paira sobre a cabeça de Hank Deerfield, personagem vivido por Tommy Lee Jones em No Vale das Sombras. Depois de anos se dedicando a um país que pouco lhe reconhece, ele parece não saber mais seu lugar no mundo. Alheio à sua percepção, tudo aquilo que considerava certo e inabalável parece ruir a sua frente, sem que nada possa fazer para mudar o panorama.

O primeiro golpe vem com a notícia do desaparecimento do filho, combatente do Iraque que não se reportou depois de uma licença de dois dias. Para Hank, só o fato do filho não ter lhe procurado já é o suficiente para que uma pulga se instale em sua orelha. Para ele, tal atitude é inconcebível vindo de um filho tão disciplinado. Mas, à medida que investiga a verdade por trás de seu paradeiro, fica claro que Hank já não conhece mais o filho como gostaria de acreditar. Algo se transformou em sua alma durante os anos que esteve fora.

valley-of-elah-1Os anos também foram cruéis para a instituição para a qual dedicou grande parte de sua vida. O exército, que outrora fora o berço de históricas batalhas onde todos pareciam lutar pelo mesmo ideal, disseminando assim um espírito inexorável de companheirismo, hoje é fonte de constantes questionamentos e os soldados que o representam parecem crianças mimadas e desobedientes que não sabem o significado da palavra sacrifício. Nem mesmo seu histórico militar é o suficiente para derrubar a enorme barreira que o impede de chegar à verdade. As velhas doutrinas que defendera foram postas de lado em nome de uma imagem que se deteriora a cada segundo.

No entanto, o que parece doer mais para Hank é a constatação de que nada valeu à pena. Todo o sacrifício que se submeteu – e sua família – em nome de uma crença mais forte que seu orgulho próprio não tem mais significado. No começo, ele ainda demonstra uma cega fé de que o filho está lutando por algo relevante. Mas, a cada nova descoberta, essa crença desmorona diante de seus olhos. A única coisa que lhe resta é a dor de saber que os princípios que ditaram sua vida até então ficaram esquecidos em um passado distante.

valley-of-elah-2No Vale das Sombras é um retrato contundente dos efeitos nocivos de uma guerra sobre sua população. Efeitos que ultrapassam o campo de batalha e que fazem vítimas até mesmo entre aqueles que não estão na linha de fogo. Ainda mais quando se trata de uma guerra que não parece fazer muito sentido para a grande maioria de seus integrantes.

O diretor Paul Haggis, que já havia cutucado a ferida da sociedade americana ao abordar o tema do racismo no ótimo Crash – No Limite, volta seu olhar crítico para um assunto que ainda desperta uma certa polêmica. Só que, diferente do que aconteceu no seu filme anterior, Haggis usa um pouco mais de sutileza para atingir seu objetivo. No Vale das Sombras tem o ritmo perfeito para que o espectador se envolva com o drama de seus personagens sem que muita informação seja vomitada de forma gratuita. A bela fotografia do renomado Roger Deakins, que abusa dos planos estáticos e reflexivos, e a atuação emocionante de Tommy Lee Jones, que investe em um tipo mais seco do que está acostumado a interpretar, garantem um espetáculo cinematográfico de primeira.

A impactante cena final ratifica a idéia de que existe um problema a ser solucionado na sociedade americana. É a constatação de um homem amargurado que percebe que seu país é refém de sua própria arrogância. É a constatação de um ex-patriota de que seu país precisa ser salvo, pois não existe chance nenhuma de encontrarem a solução sozinhos. Conforme um dos personagens do filme, é uma imagem que diz muito…

Efeito Dominó

Setembro 29, 2008

Efeito Dominó
(The Bank Job, Reino Unido, 2008)

Direção: Roger Donaldson
Elenco: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, James Faulkner

O ator Jason Statham ganhou projeção internacional depois de protagonizar os dois primeiros filmes do aclamado cineasta britânico Guy Ritchie: Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes. A partir daí, ele se transformou, junto com o americano Vin Diesel, no sucessor dos heróis de ação anteriormente vividos por Schwarzenegger, Stallone, Van Damme e Seagal. Nos últimos anos, Statham trabalhou em diversas produções do gênero, como Carga Explosiva e Adrenalina, em que sua principal função era distribuir sopapos e soltar algumas piadas infames. Efeito Dominó marca seu retorno ao cinema britânico que o lançou e também comprova que, por trás da fachada de durão, se esconde um ator carismático, capaz de encabeçar projetos mais ambiciosos.

Ele vive Terry Leather, um criminoso de segunda categoria especializado em pequenos golpes que é convencido por uma antiga namorada (a insossa Saffron Burrows) a planejar um ousado assalto a banco. Para tal, ele junta sua trupe habitual, escala alguns colaboradores pontuais e coloca em prática uma arriscada empreitada que envolve a construção de um túnel que liga uma loja abandonada ao cofre de uma instituição bancária de pequeno porte que esconde segredos que colocam em risco integrantes do mais alto escalão britânico. Tudo segue conforme planejado mas, na hora de dividir os espólios do roubo, a gangue descobre que está envolvida em uma confusão muito mais séria do que poderia imaginar e eles passam a ser perseguidos por todos os lados por pessoas dispostas a tudo para botar as mãos em informações valiosas escondidas naquele cofre.

O segredo de transformar personagens tão questionáveis em pessoas empáticas é sempre mostrá-los como seres humanos, acima de tudo. Eles não são apenas bandidos. Eles vão além de meros golpistas. Eles são pais, maridos e filhos. Pessoas comuns que tentam cuidar de seus familiares da melhor forma possível. Um deles chega a tentar a vida no mercado pornográfico. É claro que isso não justifica suas atitudes, mas ajuda a entendê-los melhor. Afinal, é da natureza humana torcer para o bandido quando o mesmo luta por um ideal louvável. É a síndrome de Robin Hood – personagem britânico, por sinal – que se alastra pelo espírito dos menos afortunados que vêem na desobediência civil uma forma de represália pela miséria que são obrigados a suportar.

O roteiro afiado constrói com uma precisão cirúrgica uma trama que gradativamente se complica à medida que o grupo descobre uma nova reviravolta. Um plano aparentemente simples se transforma em um buraco cada vez mais íngreme do qual encontrar a saída se revela uma tarefa praticamente impossível, deixando o espectador com uma constante sensação de angústia. Pena que o desfecho, onde todas as questões precisam ser resolvidas de forma satisfatória, pareça tão anticlimático. Um enredo tão rocambolesco merecia uma solução mais criativa e inusitada. Nada que comprometa o resultado final, mas não deixa de ser um pouco frustrante.

Efeito Dominó é um típico exemplar do cinema entretenimento “made in England” que tem surpreendido o mundo com suas tramas simpáticas, enredos envolventes e um visual de primeira linha. Seja na comédia, no drama ou até nos filmes de ação, o Reino Unido tem mostrado que a diversão não é mais uma exclusividade da indústria americana. Os súditos da rainha também sabem ser durões, sabem bater e sabem falar difícil, usando as mais rebuscadas gírias que somente os nativos conseguem compreender. A grande diferença é que, por trás de toda aquela fleuma britânica, reside uma irreverência natural que impede que o inglês se leve muito a sério. O resultado é a existência de uma pitada cômica até nos momentos mais contemplativos.