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Um Ato de Liberdade

Junho 10, 2009

Defiance PosterUm Ato de Liberdade
(Defiance, 2008, EUA)

Direção: Edward Zwick
Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, Jamie Bell, Alexa Davalos, George MacKay, Allan Corduner, Mark Feuerstein, Tomas Arana, Iben Hjejle

Um Ato de Liberdade é mais do que uma história sobre a segunda guerra mundial. Para falar a verdade, em certos momentos, nem parece que estamos assistindo a mais um filme sobre um dos temas mais explorados do cinema contemporâneo. Este é um relato de sobrevivência. Uma história que mostra o ser humano em sua forma mais crua. Afinal, são nos extremos que descobrimos a verdadeira natureza de cada pessoa. É na fome que desvendamos quem abre mão de seu prato de comida para ajudar o próximo e quem não mede esforços para garantir que seu estômago não fique vazio.

O recém-eleito agente secreto mais charmoso do cinema Daniel Craig capitaliza o atual prestígio que adquiriu e encabeça um elenco de rostos conhecidos mas anônimos. Ele vive o fazendeiro bielorrusso Tuvia Bielski, um judeu que é obrigado a se refugiar na floresta junto com os irmãos Zus (Liev Schreiber) e Asael (Jamie Bell) na tentativa de fugir da mira da força nazista que invadiu o seu país. Eles encontram na floresta que tanto conhecem o refúgio perfeito para se protegerem de seus invasores e, em pouco tempo, outros se juntam à sua família, formando um vilarejo com mais de mil refugiados. Enquanto alguns acham que devem lutar junto à resistência russa, outros preferem uma postura mais passiva, optando pelo aconchego da mata que os protegem. Uma situação que muitos acreditavam ser temporária, se transforma em algo indeterminado e o grupo precisa não só lutar contra forças inimigas mas também contra a fome e o frio do inverno russo.

Defiance 1O grande mérito de Um Ato de Liberdade é que ele não se limita a mostrar seus protagonistas como meras vítimas de um crime inimaginável. Passado o luto e a dor da perda, o que se vê é um grupo determinado a sobreviver a qualquer custo. Nem que para isso tenham que brigar por comida, roubar um velho camponês ou cometer atos de pura covardia, como o de linchar um soldado desarmado. Afinal, esta é uma história de seres humanos, sujeitos aos mesmos sentimentos mortais que a maioria de nós. Sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme, de vontade de vingança.

Tecnicamente, o filme é impecável. A bela fotografia retrata a floresta como uma entidade lúdica e aconchegante e ainda presenteia o espectador com Defiance 2momentos de uma estética deslumbrante, como na cena que mostra a neve caindo sobre a celebração de um casamento. A direção de arte e o figurino prezam pela simplicidade, uma escolha que se mostra acertada e coerente. E o elenco não poderia ser melhor, principalmente Liev Schreiber no papel do irmão mais impulsivo e Jamie Bell (mais conhecido como Billy Elliot) como o caçula, obrigado a amadurecer mais rápido do que o normal.

Em determinado momento, parece que estamos assistindo a uma versão contemporânea de Robin Hood. Não só pela história se desenvolver em uma floresta onde seus habitantes precisam roubar para não sucumbir às forças inimigas. Mas também porque, assim como o clássico personagem britânico, Tuvia defende a desobediência civil como única forma de combate à tirania. É uma guerra árdua e muitas vezes solitária, onde a única arma existente é a sobrevivência.

O Grande Ataque

Setembro 21, 2008

O Grande Ataque
(The Great Raid, EUA/Austrália, 2005)

Direção:  John Dahl
Elenco: Benjamin Bratt, James Franco, Connie Nielsen, Joseph Fiennes, Sam Worthington

O Grande Ataque é uma daquelas pequenas jóias que passam despercebidas pelo cinema e que acabam recebendo a atenção que merecem durante os garimpos habituais às prateleiras das locadoras. Não sei se o fraco desempenho, tanto em território brasileiro quanto no mercado internacional, se deve a uma fracassada campanha de marketing ou pelo fato de retratar um confronto relativamente desconhecido da segunda guerra mundial, mas a verdade é que esta produção está fadada a ser descoberta – e apreciada – por poucos. Uma injustiça, uma vez que este é um relato de verdadeiros heróis que amargam a vergonha da rendição e a humilhação suprema nas mãos do inimigo na busca de uma conquista mais louvável: a sobrevivência.

 Esses heróis não são os destemidos soldados que se voluntariam a uma missão arriscada para resgatar prisioneiros esquecidos no coração das Filipinas. Muito menos as enfermeiras e os comerciantes que contrabandeiam remédios e comida para o campo de concentração japonês. Curiosamente, quando os créditos finais começam a rolar, descobrimos que são exatamente essas pessoas que acabam premiadas por seus atos heróicos e altruístas. Mas o que ninguém parece perceber é que os verdadeiros guerreiros são os esfomeados, os humilhados, os enfermos, os abandonados que suportam os mais duros castigos em nome de um país que ordenou que se entregassem.

Depois de três anos vendo seus compatriotas morrerem diante de seus olhos, os poucos sobreviventes lutam contra a fome e contra as mais diversas doenças na esperança de serem resgatados por forças aliadas. A honra de cumprir essa tarefa cai nas mãos do Tenente Henry Mucci (Benjamin Bratt), um oficial que passou grande parte da guerra treinando um grupo de soldados que, até o momento, pouco combate havia testemunhado. Ele sabe que esta é a sua última chance de reconhecimento e para atingir seu objetivo, conta com a ajuda do Capitão Robert Prince (James Franco), um experiente estrategista capaz de organizar as mais ousadas missões. Os dois reúnem o grupo para realizar o ataque e partem em busca daquilo que consideram a recompensa suprema: a glória de saber que, de uma forma ou de outra, farão parte da história americana.

Só que a história não é feita apenas por aqueles que matam e morrem. Ela também reside nos corações daqueles que insistem em permanecerem vivos mesmo quando todas as forças conspiram contra eles. Eis uma maneira igualmente contundente de se atingir o inimigo. Essa é a tática do Major Gibson (Joseph Fiennes, um pouco deslocado com seu sotaque inglês). Mesmo com fome, sofrendo de malária e agüentando as mais diversas humilhações, ele condena qualquer tentativa de fuga que possa resultar na morte de um soldado. Para ele, mais importante do que escapar daquele local é sobreviver e testemunhar a queda de seu inimigo. Sua fonte de inspiração é a bela Margaret (Connie Nielsen), viúva de um soldado de seu pelotão pela qual sempre nutriu uma paixão platônica, mas que nunca a expressou abertamente por respeito ao companheiro. O sentimento é recíproco, e ela faz de tudo para garantir que seu amado sobreviva, fornecendo-lhe comida e remédios por meio de contrabando.

Este não é o típico filme de guerra de Hollywood, com explosões a cada segundo e metralhadoras cuspindo fogo de forma aleatória. Toda a ação se desenvolve no quarto final de filme e, mesmo assim, ela nunca descamba para o heroísmo exagerado, optando por um confronto sóbrio e autêntico. Durante o restante da história, o roteiro prefere voltar o seu foco para momentos mais reflexivos, em que seus personagens discorrem sobre suas ambições e inseguranças. Pena que o texto não dê espaço para todos, preferindo deixar alguns no anonimato. Quando se tornam vítimas de fatalidades, temos dificuldade de nos compadecer pois pouco os conhecemos.

A história que acaba se sobressaindo é a bela relação platônica entre a enfermeira e o prisioneiro. Eles nunca se encontram durante o filme. As poucas palavras que trocam são através de cartas sucintas e isentas de emoções. E a lembrança que têm um do outro parece ter se apagado depois de tanta morte e tanto sofrimento. Mesmo assim, o espectador nunca duvida do que sentem. E o curioso é que o mais nobre dos sentimentos parece só florescer nos períodos mais negros da história da humanidade.