Appaloosa
Uma Cidade Sem Lei
(Appaloosa, EUA, 2008 )
Direção: Ed Harris
Elenco: Ed Harris, Viggo Mortensen, Renée Zellweger, Jeremy Irons, Lance Henriksen, Rex Linn, Timothy Spall
The lesser of two evils… Essa expressão americana que poderia ser traduzida com menos impacto para “dos males o menor” dá o tom dos primeiros minutos de Appaloosa, um faroeste de rara beleza e intensidade como há muito não se via. A cidade do título experimenta o desespero da falta de alguém para colocar ordem no local. O crime e a impunidade rolam soltos e os moradores acoados recorrem a um renomado homem da lei, Virgil Cole (Ed Harris), e seu assistente, Everett Hitch (Viggo Mortensen), para salvá-los de uma gangue de malfeitores liderado pelo inescrupuloso Randall Bragg (Jeremy Irons). Antes de exercer a função pela qual foi contratado, Cole exige que os figurões da cidade assinem um termo que transforme sua vontade em lei. A hesitação é natural mas, visto que a cidade já se encontra nas mãos de uma pessoa indesejada, nada mais natural do que entregá-la a alguém aparentemente menos nocivo.
Cole não demora muito para se adaptar ao local. Ele afugenta alguns bandidos de forma implacável, faz amizade com os comerciantes locais e até arranja tempo para encontrar uma namorada, a viúva Allison French (Renée Zellweger), que em pouco tempo conquista o coração de pedra do homem da lei. Tudo parece correr bem, até o momento em que uma oportunidade de prender Bragg se apresenta. Para um delegado, a escolha parece óbvia. Mas, como diz seu assistente no começo do filme, a vida encontra formas de te surpreender a cada esquina.
Até o momento da prisão de Bragg, o filme segue a linha do faroeste tradicional, com seu ritmo lento, personagens bem polarizados e paisagens de extrema aridez. No entanto, quando Bragg é condenado e enviado para uma prisão em outra cidade, o filme dá uma inesperada guinada e se revela uma história muito mais densa do que se poderia imaginar. É nesse momento que os personagens mostram sua verdadeira indentidade e que a dura vida no oeste americano é fielmente retratada.
A mais grata surpresa fica por conta de Allison French, a personagem feminina de maior força que já vi em um faroeste. Geralmente, em filmes do gênero, a mulher não passa de uma donzela inocente esperando a chegada de seu amado herói para salvá-la de um apuro. Em Appaloosa, o roteiro parece tomar o mesmo rumo até o momento em que French se revela mais misteriosa do que nossa impressão inicial. Ela é o mais fiel retrato de uma sobrevivente que o oeste americano poderia conceber. Em uma época marcada pela crueza dos homens, uma mulher solitária teria pouco espaço para sobreviver a não ser que soubesse utilizar com destreza as poucas armas que possui. E é isso que French faz, sem que isso a torne uma pessoa má.
É claro que quem paga o preço por tamanha descoberta é o pobre e inocente Cole, que possui um entendimento limitado das questões do coração. Ele fica sem jeito quando o assunto de amor e sexo é abertamente mencionado e sua reação é a de um menino mimado que resolve descontar nos outros a sua frustração. Ele não é o mais brilhante ou caridoso dos mortais mas nota-se, escondido nas profundezas de sua alma, algo que se assemelha a humanidade. E é isso que faz com que tome atitudes que contrariam suas próprias normas.
Como dá para perceber, Appaloosa é um faroeste cuja força reside em seus personagens, que se mostram bem mais complexos do que poderia antecipar o leigo espectador. Até mesmo Bragg, que inicialmente surge como o vilão maquiavélico, sofre uma alteração com o andar da carruagem - perdoe-me o trocadilho – e reaparece mais sensato e cordial, mas ainda inescrupuloso. No entanto, a verdadeira força que move Appaloosa – até por isso é o elemento de seu genial desfecho – é Everett. A amizade que nutre por Cole é genuína e inexorável e a dedicação que ele mostra para com o amigo beira o amor. Não um amor Brokeback Mountain, mas nem por isso menos intenso ou verdadeiro.
E para vivê-lo, o diretor Ed Harris não poderia ter escolhido um intérprete mais adequado. Viggo Mortensen demonstra um controle invejável sob seu personagem, que tenta a todo custo – e sem muito sucesso – esconder seus sentimentos. Sua expressão quando fica sabendo que Cole e French vão morar juntos revela uma evidente decepção, mas ainda assim esboça um sorriso. É gratificante ver um ator como Mortensen ganhando espaço em filmes mais autorais. Sua participação na série O Senhor dos Anéis poderia condená-lo a uma eternidade de papéis superficiais em grandes produções americanas, mas o ator soube direcionar sua carreira para algo mais ambicioso.
Em determinados momentos do filme, Cole recorre a Hitch para ajudá-lo com suas limitações idiomáticas. E o amigo responde automaticamente, como se lesse o pensamento do outro. Hitch também é consultado quando uma difícil decisão precisa ser tomada e sua palavra nunca é colocada em dúvida. É essa amizade que move Appaloosa. É ela a responsável por seu desfecho comovente. E é ela que coloca Appaloosa entre os grandes faroestes dos últimos anos.
