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Taxi to the Dark Side

Outubro 1, 2008

Taxi to the Dark Side
(Taxi to the Dark Side, EUA, 2007)

Direção: Alex Gibney
Elenco: Alex Gibney, Greg D’Agostino, John Yoo, Eric Lahammer, Willie Brand, Damien Corsetti

A forte imagem estampada no cartaz do filme Taxi to the Dark Side já revela o teor da denúncia deste documentário. Enquanto dois soldados carregam um prisioneiro encapuzado e algemado pelas costas a um destino incerto, suas sombras formam as listas da bandeira americana. O vermelho que outrora representou o sangue derramado dos combatentes que deram sua vida para a liberdade de uma nação, hoje simboliza a falta de limites desta mesma nação na hora de derramar o sangue dos outros.

Premiado com o Oscar de melhor documentário – o que considero uma surpresa, uma vez que o filme aponta seu olhar crítico para o alto escalão do governo americano – Taxi to the Dark Side conta a história de um taxista afegão que, durante uma de suas viagens, é capturado por soldados americanos e enviado para a base aérea de Bagram, onde é torturado e morto pelos militares que esperavam arrancar alguma informação importante de seu prisioneiro. A partir desse caso pontual, o filme volta suas câmeras para uma nova política de detenção e interrogatório praticada pelo exército americano desde os ataques de 11 de setembro. O que aconteceu com o taxista em questão não foi um evento isolado. Ele faz parte de uma rotina que se instalou nos corredores das prisões militares sob a crença de que os fins justificam os meios.

“Se você jogar uma pessoa em uma situação insana, ele fará coisas insanas”, proclama um dos soldados durante seu depoimento. Esta tentativa de justificar atos tão condenáveis soa fútil quando percebemos que as pessoas que se apresentam à câmera são versões arrumadas e limpas dos verdadeiros executores dos crimes em questão. A vergonha de hoje não se fez presente durante a tortura de ontem, em que demonstravam um prazer quase sádico enquanto colocavam em prática suas táticas de interrogatório desumanas. É verdade que, em época de guerra, não cabe aos soldados questionar ordens recebidas. Mas não existe lei que os obriguem a desfrutar tanto delas. As fotos por eles tiradas é uma demonstração clara de que, embora não sejam os únicos culpados, estão longe de serem inocentes.

Apesar de não servir de atenuante, os argumentos utilizados pelos acusados levantam questões que merecem debate. Como esperar que um combatente, sem preparo, tenha a racionalidade para interpretar seus próprios atos quando os mesmos são defendidos e até encorajados por aqueles que deveriam policiá-lo? O que é pior é que a participação do governo não se limita a fechar os olhos para o que está acontecendo. Eles manipulam as leis, ignoram a constituição, escondem informações, reescrevem a verdade. Tudo em prol de uma luta contra um mal chamado terrorismo. Um mal que se alimenta da violência e infecta até aqueles que o combate. E quem sai perdendo são os próprios americanos.

Afinal, como diz um dos entrevistados, uma guerra não se trata apenas de uma luta para a sobrevivência do indivíduo. Ela também precisa defender princípios. Os mesmos princípios que enchem o peito dos patriotas de orgulho. Porque a democracia é mais do que um simples regime político onde o povo elege seu governante. Ele é um regime que prega a igualdade entre os seres humanos, a liberdade de expressar sua opinião e a segurança de ter seus direitos sempre respeitados. Mesmo que esse direito seja o de usar a bandeira de seu país em forma de crítica, como acontece no cartaz desse filme. Cartaz, por sinal, que foi censurado pelo governo americano.