Arquivo da categoria ‘Comédia’

Tinha que Ser Você

Setembro 1, 2009

Last Chance HarveyTinha que Ser Você
(Last Chance Harvey, 2008, EUA)

Direção: Joel Hopkins
Com: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins, Kathy Baker, Liane Balaban, James Brolin, Richard Schiff

A comédia romântica nunca mais foi a mesma depois que Harry e Sally descobriram que eram feitos um para o outro.  Hoje, os amantes em crise não possuem a maturidade e a vivência para destilar suas frustrações para o grande público. Os dramas são rasos, as piadas pouco inspiradas e os personagens meros marionetes em um espetáculo de superficialidade. Enquanto isso, pequenas pérolas do gênero se escondem entre um grande lançamento e o próximo.

Quando foi que Hollywood decidiu que pessoas mais velhas não tinham mais a capacidade de vivenciar as desventuras de um novo amor? Aquele friozinho que invade nossas barrigas e que faz com que nos comportemos como verdadeiros idiotas. No entanto, são exatamente essas pessoas que tem mais a oferecer ao grande público pois são elas que possuem uma bagagem maior para ser carregada. São elas que amargam as maiores decepções, que sofrem as perdas irreparáveis, que experimentam a tristeza angustiada e silenciosa. E, por tudo isso, as mais propensas a buscar em uma nova paixão a solução para todos seus problemas.

Last Chance Harvey 1Vejamos o caso de Harvey Shine (Dustin Hoffman), um compositor que passou a vida se dedicando a uma profissão que não gosta – ele escreve músicas para jingles – enquanto sua esposa e filha o abandonavam para viver em Londres. Hoje, depois de muitos anos longe da filha, ele viaja para o velho continente a fim de vê-la caminhar até o altar. Só que não do seu lado, como manda o figurino, mas do lado de seu padrasto Brian (James Brolin), que esteve mais presente na vida da jovem noiva. Para fechar com chave de ouro um dia melancólico, ele recebe a notícia de que não precisa ter pressa para voltar ao trabalho, pois já não tem um emprego.

É nessas circunstâncias que ele conhece Kate Walker (a sempre excepcional Emma Thompson), uma mulher que agüenta em silêncio uma vida de emoções contidas. Seu trabalho consiste em fazer uma pesquisa de satisfação a passageiros mal-humorados que acabaram de sair de uma longa e cansativa viagem. Sua vida pessoal é marcada pela solidão e pela mãe paranóica que insiste em ligar constantemente para filha a fim de denunciar as atividades suspeitas de um vizinho imigrante. Sua vida amorosa inexiste, pois nunca encontrou alguém que soubesse enxergar a beleza escondida atrás de tanta tristeza.

Last Chance Harvey 2O encontro de duas almas tão perdidas é o ponto de partida da comédia romântica mais simpática do ano. Enquanto passeiam pelas sempre fotogênicas ruas de Londres, eles aproveitam para se conhecer, para exorcizar seus demônios internos e para analisar os motivos que os levaram ao ponto em que se encontram hoje. Mas sem nunca perder o bom humor e a esperança de que suas vidas podem um dia mudar.

Alguns dizem que o verdadeiro amor só acontece uma vez na vida. Outros preferem acreditar que o amor é um sentimento reciclável que está sempre pronto para uma nova aventura. Eu não ousaria em me arriscar a fornecer uma resposta para esse enigma, mas de uma coisa eu tenho certeza. Uma boa comédia romântica surge apenas uma vez por ano. Por isso, aproveitem. Depois dessa, só no ano que vem.

Na Mira do Chefe

Outubro 19, 2008

Na Mira do Chefe
(In Bruges, Reino Unido/Bélgica, 2008)

Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier, Thekla Reuten, Jordan Prentice

Vivemos a era da reciclagem. Com o prognóstico do fim do mundo cada vez mais próximo, a necessidade de reaproveitarmos os recursos ainda existentes aumenta exponencialmente. Infelizmente, o que era verdade apenas para metais, papéis e afins, hoje virou rotina também na indústria cinematográfica. Uma idéia original é um ítem precioso entre aqueles que querem se arriscar no mundo da sétima arte. Aqueles que a encontram, a protegem com extrema cautela e tentam espremer da mesma tudo o que ela tem para oferecer. Afinal, não se sabe nem quando nem se a próxima irá aparecer.

Pois marquem o nome de Martin McDonagh. Ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 2006 com o filme Six Shooter, ele marca a sua estréia como diretor de longas com um dos melhores filmes deste ano. Misturando na dose certa comédia, suspense e drama, ele constrói uma fábula deliciosamente inusitada sobre as aventuras de dois assassinos profissionais em uma pequena cidade do interior da Bélgica.

Colin Farrell vive o intrépido Ray, um aspirante a matador de aluguel que é enviado por seu chefe Harry (Ralph Fiennes), junto com o amigo Ken (Brendan Gleeson), à desconhecida cidade de Bruges depois de um serviço. O lugar é um recanto de turistas onde não se tem muito o que fazer a não ser ver monumentos medievais e passear de barco pelo canal que cruza a cidade. Para um integrante de velha guarda como Ken, a experiência pode se tornar algo relaxante. Mas para o espírito inquieto de um jovem irlandês como Ray, o tédio que o lugar exala é o equivalente a uma viagem sem volta para o inferno. Enquanto esperam ordens de seu empregador, os dois passeiam pelos pontos turísticos, fazem amizades e inimizades com os mais diversos tipos – inclusive um anão -  e até se arriscam no amor.

A capacidade de McDonagh de encontrar lógica e racionalidade nos elementos mais bizarros é assustadora. Tudo em In Bruges – me recuso a utilizar a péssima tradução brasileira – tem um propósito. Até mesmo aquelas cenas que parecem completamente injustificadas e gratuitas acabam fazendo sentido no final. Com o desenrolar da trama, a estranheza inicial dá lugar a um sorriso irreverente que se diverte com a constatação de que está diante de uma obra diferente. Uma obra que não tem medo de subverter alguns conceitos pré-determinados do público em troca de uma dose excessiva de originalidade.

A grata surpresa fica por conta da presença do pseudo-galã Colin Farrell nesta modesta produção, que não faz frente aos diversos filmes que já participou durante seu período em Hollywood. Depois de surpreender com uma atuação comovente no ótimo O Sonho de Cassandra, de Woody Allen, o ator irlandês volta a mostrar seu talento no papel do inexperiente e atormentado Ray. Mesmo nos momentos mais extrovertidos, ele demonstra uma certa amargura no olhar. E o eterno coadjuvante Brendan Gleeson nos brinda com um de seus melhores trabalhos na pele de um homem cansado de viver lado a lado com a morte e que encontra na cidade desconhecida seu momento mais terno.

In Bruges é um filme que beira a utopia. Ele é um filme em que os criminosos têm princípios, os assassinos têm consciência, as imagens possuem uma pitada de bucolismo e o amanhã vem recheado com a esperança de um novo começo. Passeando entre o céu e o inferno, é em Bruges que cada personagem descobre para qual dos dois está destinado.

Efeito Dominó

Setembro 29, 2008

Efeito Dominó
(The Bank Job, Reino Unido, 2008)

Direção: Roger Donaldson
Elenco: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, James Faulkner

O ator Jason Statham ganhou projeção internacional depois de protagonizar os dois primeiros filmes do aclamado cineasta britânico Guy Ritchie: Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes. A partir daí, ele se transformou, junto com o americano Vin Diesel, no sucessor dos heróis de ação anteriormente vividos por Schwarzenegger, Stallone, Van Damme e Seagal. Nos últimos anos, Statham trabalhou em diversas produções do gênero, como Carga Explosiva e Adrenalina, em que sua principal função era distribuir sopapos e soltar algumas piadas infames. Efeito Dominó marca seu retorno ao cinema britânico que o lançou e também comprova que, por trás da fachada de durão, se esconde um ator carismático, capaz de encabeçar projetos mais ambiciosos.

Ele vive Terry Leather, um criminoso de segunda categoria especializado em pequenos golpes que é convencido por uma antiga namorada (a insossa Saffron Burrows) a planejar um ousado assalto a banco. Para tal, ele junta sua trupe habitual, escala alguns colaboradores pontuais e coloca em prática uma arriscada empreitada que envolve a construção de um túnel que liga uma loja abandonada ao cofre de uma instituição bancária de pequeno porte que esconde segredos que colocam em risco integrantes do mais alto escalão britânico. Tudo segue conforme planejado mas, na hora de dividir os espólios do roubo, a gangue descobre que está envolvida em uma confusão muito mais séria do que poderia imaginar e eles passam a ser perseguidos por todos os lados por pessoas dispostas a tudo para botar as mãos em informações valiosas escondidas naquele cofre.

O segredo de transformar personagens tão questionáveis em pessoas empáticas é sempre mostrá-los como seres humanos, acima de tudo. Eles não são apenas bandidos. Eles vão além de meros golpistas. Eles são pais, maridos e filhos. Pessoas comuns que tentam cuidar de seus familiares da melhor forma possível. Um deles chega a tentar a vida no mercado pornográfico. É claro que isso não justifica suas atitudes, mas ajuda a entendê-los melhor. Afinal, é da natureza humana torcer para o bandido quando o mesmo luta por um ideal louvável. É a síndrome de Robin Hood – personagem britânico, por sinal – que se alastra pelo espírito dos menos afortunados que vêem na desobediência civil uma forma de represália pela miséria que são obrigados a suportar.

O roteiro afiado constrói com uma precisão cirúrgica uma trama que gradativamente se complica à medida que o grupo descobre uma nova reviravolta. Um plano aparentemente simples se transforma em um buraco cada vez mais íngreme do qual encontrar a saída se revela uma tarefa praticamente impossível, deixando o espectador com uma constante sensação de angústia. Pena que o desfecho, onde todas as questões precisam ser resolvidas de forma satisfatória, pareça tão anticlimático. Um enredo tão rocambolesco merecia uma solução mais criativa e inusitada. Nada que comprometa o resultado final, mas não deixa de ser um pouco frustrante.

Efeito Dominó é um típico exemplar do cinema entretenimento “made in England” que tem surpreendido o mundo com suas tramas simpáticas, enredos envolventes e um visual de primeira linha. Seja na comédia, no drama ou até nos filmes de ação, o Reino Unido tem mostrado que a diversão não é mais uma exclusividade da indústria americana. Os súditos da rainha também sabem ser durões, sabem bater e sabem falar difícil, usando as mais rebuscadas gírias que somente os nativos conseguem compreender. A grande diferença é que, por trás de toda aquela fleuma britânica, reside uma irreverência natural que impede que o inglês se leve muito a sério. O resultado é a existência de uma pitada cômica até nos momentos mais contemplativos.

Violetas Púrpuras

Setembro 23, 2008

Violetas Púrpuras
(Purple Violets, EUA, 2007)

Direção: Edward Burns
Elenco: Selma Blair, Patrick Wilson, Edward Burns, Debra Messing, Dennis Farina, Donal Logue

O grande talento do diretor independente Edward Burns reside na sua capacidade de transformar a simplicidade em arte. Enquanto o cinema contemporâneo recorre a ícones da indústria pop para atrair o público jovem para as salas, Burns resolve se comunicar com sua própria geração e investe em um filme honesto, onde coloca em pauta os sentimentos de alienação que muito de nós experimentamos durante um período de transição.

O roteiro acompanha o drama de Patti (Selma Blair), uma promissora aspirante a escritora que abandona seu sonho para seguir uma carreira mais segura no ramo imobiliário enquanto cuida do marido Chazz (Donal Logue). Durante um jantar com a melhor amiga Kate (Debra Messing, do seriado Will & Grace), ela reencontra Brian (Patrick Wilson), um antigo namorado da época da faculdade que hoje se transformou em um renomado escritor de romances policiais. Esse encontro balança com sua cabeça e ela passa a questionar se tomou o caminho certo quando abriu mão de suas ambições literárias.

Brian vive uma crise de identidade própria. Sedento para ser levado a sério como escritor, ele resolve abandonar seu personagem mais famoso para escrever um complexo drama psicológico. A empreitada não obtém o resultado esperado nem com a crítica, nem com seu público cativo, que ansiava por mais uma aventura do detetive nova-iorquino conhecido com Jack Knight. Seus editores o pressionam a resgatar o personagem do limbo. Até mesmo seu advogado e melhor amigo Michael (Edward Burns) tenta convencê-lo a desistir da idéia de se tornar um escritor respeitável. Mas desde a juventude ele ambicionou escrever a grande novela americana e hoje ele se sente como se tivesse vendido a alma em troca de dinheiro.

Em paralelo, Michael e Kate vivem um conflito próprio. Eles também se conhecem desde a faculdade e também viveram um tórrido romance que se encerrou de forma traumática. Mesmo com a passagem dos anos, Kate não consegue perdoar uma suposta traição de Michael com medo de sofrer uma nova desilusão. Ele, por outro lado, busca a rendenção dos pecados cometidos no período em que foi um alcoólatra e não descansa enquanto não derrubar a barreira que o separa de seu amor da juventude.

O encontro acidental entre Patti e Brian funciona como uma pequena pedra jogada em um lago. Apesar de pontual, o impacto acaba causando ondas que, a princípio, são pequenas e aparentemente inofensivas. Elas afetam apenas o íntimo dos personagens envolvidos sem que o mundo externo sofra qualquer mutação. Mas essa onda insignificante acaba gerando ondas cada vez maiores que extrapolam os limites individuais e alteram permanentemente o pequeno universo em que estão encaixados.

Violetas Púrpuras é um filme que trata do desejo oculto do ser humano de se conformar com uma realidade que parece confortável, mas que se distancia do ideal que cada um traça no começo da vida. Tanto Brian quanto Patti estão longe de viver os seus verdadeiros sonhos, mas levam uma vida tranqüila, sem muitos percalços. É muito fácil para o ser humano se acomodar quando vive um período de calmaria. É natural que queira fugir da tempestade que pode causar mudanças permanentes e alterar para sempre seu senso de segurança. Mas sem o caos, não existe amadurecimento. Sem a incerteza, não existe futuro, e sim uma eternidade de presentes.

Edward Burns encontra em Violetas Púrpuras seu momento mais melancólico. Acostumado a realizar filmes simpáticos e despretensiosos, ele também parece buscar uma mudança de rumo. Talvez por isso saiba interpretar com tanta precisão os sentimentos de seus personagens. É a voz de um cineasta á procura de sua verdadeira identidade que, no processo, realiza sua obra mais madura.