Última Parada 174
(Última Parada 174, Brasil/ França, 2008 )
Direção: Bruno Barreto
Elenco: Michel Gomes, Cris Vianna, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Anna Cotrim, Tay Lopez, Douglas Silva, Rafael Logan, André Ramiro, Alessandra Cabral, Tereza Xavier
Última Parada 174 é uma obra ultrapassada desde sua concepção. Utilizando fórmulas já consagradas pelo mercado, o cineasta Bruno Barreto resolveu fazer um apanhado de tudo o que já fez sucesso em anos anteriores. De Cidade de Deus e Tropa de Elite vêm a brutalidade e a aridez da violência do Rio de Janeiro, além, é claro, de outro elemento que mais tarde será detalhado. De Central do Brasil, a relação entre uma mulher que tenta resgatar seu instinto materno e um garoto sem rumo. Até mesmo na hora de escolher sua história, o diretor optou por buscar no premiado documentário Ônibus 174 o seu tema central. O resultado é um filme que cheira a mofo, sem nenhuma idéia original a ser apresentada a não ser a reciclagem de receitas antigas.
Então porque, ainda assim, recomendar essa produção. É aí que entra o elemento faltante acima mencionado. Assim como os premiados filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, Última Parada 174 foi buscar no talento do roteirista Bráulio Mantovani o coração de sua história. E, novamente, Mantovani mostra uma capacidade ímpar de compor uma trama bem estruturada, com ganchos clinicamente colocados para que mais tarde sejam aproveitados e diálogos que misturam a agressividade da vida urbana carioca com a malandragem daqueles que vivem às margens do crime.
Tudo começa com uma situação não muito convincente em que uma mãe drogada é forçada por um traficante a abandonar o filho recém-nascido. A partir daí, acompanha-se a jornada de um garoto perdido que encontra seu lar na Candelária depois de rodar o Rio de Janeiro em busca de Copacabana. Lá, ele participa de pequenos roubos para sustentar seu vício em cola, o que desagrada os comerciantes locais. Quando os contraventores são chacinados por um grupo de extermínio, o jovem Alê, sobrevivente do massacre, acaba parando na prisão.
Lá, ele faz amizade com um rapaz de mesmo nome. Ao mesmo tempo, depois de assistir um noticiário em que Alê fala sobre o que aconteceu na Candelária, aquela mesma mãe do começo do filme, hoje reabilitada na paz de Deus, decide que está diante de seu filho. Ela o procura, na esperança de recuperar o instinto materno que se perdeu ao longo dos anos. Só assim, ela se sentirá em condições de constituir uma nova família com seu atual marido.
Mantovani mostra mais uma vez um controle invejável de seus personagens e de tudo o que acontece ao redor dos mesmos. Cada elemento aparentemente injustificado se revela essencial na construção do panorama psicológico dos integrantes da história. Um copo que quebra, uma mensagem de batom deixada em um espelho, uma cena em que o protagonista é incapaz de disparar uma arma. Tudo o que se vê em Última Parada 174 é de extrema importância para se entender o motivo por trás das ações de cada um. Há quem goste desta forma estruturada de se elaborar um roteiro. Há os que não gostam. Opiniões pessoais a parte, há de se elogiar o apuro por trás desse trabalho, raro no cinema brasileiro, que transforma até a história mais insossa em algo digno de ser assistido.
Última Parada 174 também se beneficia das impressionantes interpretações do elenco central, que vê em Michel Gomes o ator ideal para viver o perturbado Sandro. O estreante se revela preciso tanto nos momentos mais leves, como em uma entrevista a uma rede de televisão francesa em que se mostra curioso e sem jeito com toda aquela atenção, quanto nos momentos mais tensos, em que precisa pontuar toda a ira e revolta por trás de um seqüestro tão violento.
É uma pena que tanta coisa boa tenha caído na mão de um diretor incapaz de transformar o filme em algo relevante. Última Parada 174 mais parece uma tentativa desesperada de um cineasta de mostrar que ainda se mantém sintonizado com o que está sendo feito atualmente no cinema nacional. Esse desespero resulta em um filme desonesto, sem identidade, que só não cai no mais completo esquecimento graças a um belo trabalho de seu roteirista.
OBS. Última Parada 174 foi eleito pelo Brasil como representante nacional para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem.






