Arquivo da categoria ‘Cinema Nacional’

Última Parada 174

Novembro 4, 2008

174-posterÚltima Parada 174
(Última Parada 174, Brasil/ França, 2008 )

Direção: Bruno Barreto
Elenco:
Michel Gomes, Cris Vianna, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Anna Cotrim, Tay Lopez, Douglas Silva, Rafael Logan, André Ramiro, Alessandra Cabral, Tereza Xavier

Última Parada 174 é uma obra ultrapassada desde sua concepção. Utilizando fórmulas já consagradas pelo mercado, o cineasta Bruno Barreto resolveu fazer um apanhado de tudo o que já fez sucesso em anos anteriores. De Cidade de Deus e Tropa de Elite vêm a brutalidade e a aridez da violência do Rio de Janeiro, além, é claro, de outro elemento que mais tarde será detalhado. De Central do Brasil, a relação entre uma mulher que tenta resgatar seu instinto materno e um garoto sem rumo. Até mesmo na hora de escolher sua história, o diretor optou por buscar no premiado documentário Ônibus 174 o seu tema central. O resultado é um filme que cheira a mofo, sem nenhuma idéia original a ser apresentada a não ser a reciclagem de receitas antigas.

Então porque, ainda assim, recomendar essa produção. É aí que entra o elemento faltante acima mencionado. Assim como os premiados filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, Última Parada 174 foi buscar no talento do roteirista Bráulio Mantovani o coração de sua história. E, novamente, Mantovani mostra uma capacidade ímpar de compor uma trama bem estruturada, com ganchos clinicamente colocados para que mais tarde sejam aproveitados e diálogos que misturam a agressividade da vida urbana carioca com a malandragem daqueles que vivem às margens do crime.

174-aTudo começa com uma situação não muito convincente em que uma mãe drogada é forçada por um traficante a abandonar o filho recém-nascido. A partir daí, acompanha-se a jornada de um garoto perdido que encontra seu lar na Candelária depois de rodar o Rio de Janeiro em busca de Copacabana. Lá, ele participa de pequenos roubos para sustentar seu vício em cola, o que desagrada os comerciantes locais. Quando os contraventores são chacinados por um grupo de extermínio, o jovem Alê, sobrevivente do massacre, acaba parando na prisão.

Lá, ele faz amizade com um rapaz de mesmo nome. Ao mesmo tempo, depois de assistir um noticiário em que Alê fala sobre o que aconteceu na Candelária, aquela mesma mãe do começo do filme, hoje reabilitada na paz de Deus, decide que está diante de seu filho. Ela o procura, na esperança de recuperar o instinto materno que se perdeu ao longo dos anos. Só assim, ela se sentirá em condições de constituir uma nova família com seu atual marido.

174-bMantovani mostra mais uma vez um controle invejável de seus personagens e de tudo o que acontece ao redor dos mesmos. Cada elemento aparentemente injustificado se revela essencial na construção do panorama psicológico dos integrantes da história. Um copo que quebra, uma mensagem de batom deixada em um espelho, uma cena em que o protagonista é incapaz de disparar uma arma. Tudo o que se vê em Última Parada 174 é de extrema importância para se entender o motivo por trás das ações de cada um. Há quem goste desta forma estruturada de se elaborar um roteiro. Há os que não gostam. Opiniões pessoais a parte, há de se elogiar o apuro por trás desse trabalho, raro no cinema brasileiro, que transforma até a história mais insossa em algo digno de ser assistido.

Última Parada 174 também se beneficia das impressionantes interpretações do elenco central, que vê em Michel Gomes o ator ideal para viver o perturbado Sandro. O estreante se revela preciso tanto nos momentos mais leves, como em uma entrevista a uma rede de televisão francesa em que se mostra curioso e sem jeito com toda aquela atenção, quanto nos momentos mais tensos, em que precisa pontuar toda a ira e revolta por trás de um seqüestro tão violento.

É uma pena que tanta coisa boa tenha caído na mão de um diretor incapaz de transformar o filme em algo relevante. Última Parada 174 mais parece uma tentativa desesperada de um cineasta de mostrar que ainda se mantém sintonizado com o que está sendo feito atualmente no cinema nacional. Esse desespero resulta em um filme desonesto, sem identidade, que só não cai no mais completo esquecimento graças a um belo trabalho de seu roteirista.

OBS. Última Parada 174 foi eleito pelo Brasil como representante nacional para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem.

 

 

Ensaio Sobre a Cegueira

Setembro 17, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira
(Blindness, Brasil/Japão/Canadá, 2008)

Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal

A combinação não poderia ser mais perfeita. A começar pelo diretor Fernando Meirelles, o melhor cineasta brasileiro da atualidade, quiçá do mundo. Adicione a essa receita um dos mais aclamados escritores contemporâneos e sua obra mais famosa. E, para culminar, um elenco internacional recheado de estrelas como Julianne Moore e Gael Garcia Bernal. O que esperar de um filme desse?

Obra-prima era a primeira palavra que vinha à tona quando o potencial dessa produção era colocado em pauta. Confesso que minhas expectativas eram igualmente elevadas. E, apesar de considerar que o resultado final não faz feio, não dá para esconder a frustração quando a sessão se encerra. Ensaio Sobre a Cegueira é correto e condizente com o trabalho literário em que se baseia, mas não é o filme arrebatador que muitos esperavam. Ele atinge seus objetivos, transmite suas mensagens e agrada a seu criador, mas tudo de uma forma muito premeditada como se o filme fosse o produto de uma equação matemática.

Tudo começa quando, em uma cidade anônima – nem tanto para os paulistanos – um carro permanece estático mesmo depois de receber o aval do farol verde. É um início de um caos que atingirá proporções catastróficas. O motorista está cego e sua doença, em pouco tempo, vitimará grande parte da população local. Não demora muito para que o pânico tome conta da metrópole. Os infectados são então levados para um edifício abandonado onde são largados sob forte vigilância e condições pouco humanas. A única pessoa aparentemente imune ao problema é uma mulher (Julianne Moore) que se muda para a área de quarentena no intuito de acompanhar o marido (Mark Ruffalo). Lá, eles encontram uma série de outras vítimas, que vão desde a prostituta de bom coração (Alice Braga) até o pilantra que tenta tirar proveito da situação (Gael Garcia Bernal, em atuação exuberante).

O que mais assusta na obra de Saramago é o retrato que traça da fragilidade do espírito humano quando confrontado com um acontecimento que foge de seu controle. O humanismo, que tanto nos orgulha quando nos comparamos a outros animais, é rapidamente deixado de lado e o que se vê é um descenso aterrorizante a um estado bestial onde fica quase impossível definir a diferença entre homem e bicho. Em pouco tempo, os cegos andam nus pelos corredores, escorregando em seus próprios excrementos e brigando por cada grão de arroz enquanto as autoridades responsáveis por seus cuidados pouco fazem para garantir aos infectados o mínimo de decência para sobreviver. Dentro do isolamento, cegos se dividem em facções onde a mais poderosa assume o controle das outras, exigindo das mesmas sacrifícios incalculáveis. A sensação que fica é que a distância que nos separa dos animais é bem menor do que gostaríamos de imaginar.

A grande dificuldade ao embarcar em um projeto como esse é a de transpor para a tela imagens que carreguem o mesmo impacto que as palavras utilizadas por seu escritor. Nesse ponto, o filme não decepciona. Elogiar a qualidade técnica de uma obra de Meirelles já virou rotina e em Ensaio Sobre a Cegueira, a realidade não é muito diferente. Como a cegueira retratada no filme é constituída de um branco leitoso ao invés da escuridão habitual, nada mais natural que abusar de uma fotografia estourada e fora de foco. É como se o espectador sofresse do mesmo mal que assola cada um dos infectados. Muitas vezes não se sabe exatamente o que se está assistindo, obrigando a platéia a utilizar seus outros sentidos para deduzir o que acontece na cena.

Mesmo com tantos pontos a seu favor, Ensaio Sobre a Cegueira peca na hora de imprimir um pouco de sentimento em sua história. O processo de desumanização sofrido por seus personagens acaba por distanciá-los do público e transforma o filme em uma obra fria em que o chamariz reside mais em seu impacto visual do que no teor de suas emoções. Até as cenas mais poéticas, como aquela em que os infectados se deliciam com uma inesperada chuva, parecem dissimuladas. No final, o que mais impressiona -  pelo menos para os paulistanos - é a visão de uma São Paulo apocalíptica, desabitada, com seu centro abandonado às traças e ao lixo.

O filme se encerra com o rosto esperançoso de Julianne Moore refletindo sobre todo o sofrimento que vivenciou durante esse período de caos. Nada mais justo. Seu drama é talvez o único que exerce algum fascínio ao espectador, tamanho o peso que carrega nas costas. Sua aparentemente abençoada imunidade acaba transformando-a na grande esperança daqueles a seu redor, mas não ajuda a diminuir a distância entre eles. Apesar de se submeter a todos os sacrifícios imagináveis, paira no ar a sensação de que não pertence àquele mundo. Contrariando a sabedoria proverbial, Saramago prova que, em terra de cegos, quem tem um olho não é rei, e sim escravo. 

Linha de Passe

Setembro 8, 2008


Linha de Passe
(Idem, Brasil, 2008)

Direção: Walter Salles, Daniela Thomas
Elenco: Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Sandra Corveloni, Kaique de Jesus Santos, João Baldasserini

O termo que dá nome ao novo filme do aclamado cineasta Walter Salles, responsável por sucessos como Central do Brasil e Diários de Motocicleta, se refere à capacidade de integrantes de um mesmo time de fazer a bola passar de pé em pé até chegar a seu objetivo final. Aqui, a bola dá lugar à câmera que, cuidadosamente, trafega pelos dramas de cada um de seus personagens com o intuito de traçar um panorama não muito profundo, mas nem por isso menos emocionante, da dura realidade da classe proletária paulistana.

Sem uma linha estrutural definida, característica comum a filmes do gênero, Linha de Passe narra a jornada de uma família para sobreviver as agruras do cotidiano. A matriarca da casa é Cleuza (Sandra Corveloni, prêmio de melhor atriz em Cannes), uma empregada doméstica que toma conta de seus quatro filhos – de pais diferentes – e que aguarda seu quinto herdeiro enquanto afoga suas mágoas em eventuais bebedeiras e idas ocasionais ao estádio para assistir ao time do coração. Seu sonho é ver o filho Dario (Vinícius de Oliveira, o garotinho de Central do Brasil) brilhando em algum grande clube da capital. Mas o relógio insiste em correr e as chances de conseguir uma vaga na sua idade diminuem gradativamente.

Em paralelo, seus outros três filhos também amargam seus próprios dramas pessoais enquanto lutam para sobreviver. Dênis (João Baldasserini) mal consegue com seu salário de motoboy o suficiente para sustentar o filho que pouco vê. A pressão para ajudar no sustento da casa e alimentar suas escapadelas sexuais faz com que ele recorra a recursos menos convencionais para conseguir o dinheiro que lhe falta. Dinho (José Geraldo Rodrigues) carrega algum trauma de erros cometidos no passado – que nunca fica claro ao espectador sua natureza – e busca na igreja a redenção de seus pecados. E Reginaldo (a jovem revelação Kaique de Jesus Santos) é um garoto revoltado que sonha em um dia encontrar o pai que nunca conheceu. Munido da informação de que o pai era um motorista de ônibus, Reginaldo passa o tempo viajando de carona em veículos dirigidos por condutores negros como ele, exorcizando sua carência com protótipos de figuras paternas.

Salles adota uma narrativa em forma de mosaico para alternar a atenção entre seus diversos personagens e suas desventuras. Se, por um lado, a abordagem proporciona a oportunidade de se familiarizar com cada um dos componentes desse angustiante panorama paulistano, por outro, nunca se aprofunda com intensidade nas mazelas por eles vividas. Ao mesmo tempo, alguns temas atuais que poderiam ser explorados com mais detalhes acabam servindo apenas como um pano de fundo, como, por exemplo, a queima de ônibus pelo crime organizado de São Paulo ou a compra de vagas em times profissionais de futebol.

O elenco afiado – provando mais uma vez o talento do diretor nesse aspecto – é o que Linha de Passe tem de melhor para oferecer. A desconhecida Sandra Corveloni, justamente premiada, carrega em cada curva de sua expressão sofrida a dor de uma vida onde a felicidade é um elemento raro. Vinícius de Oliveira mostra um grande amadurecimento desde o irritante garoto de Central do Brasil ao retratar um jovem à beira do desespero vendo as portas de seu futuro se fechando à sua frente. E o jovem Kaique nos brinda com uma comovente atuação na pele de um garoto que mistura a inocência irreverente de uma criança com a dor latente de uma pessoa abandonada. Pena que o roteiro tenha optado por esbarrar em algumas caricaturas ao compor seus personagens. Em uma mesma família encontram-se praticamente todos os elementos que compõem o universo proletário paulistano: a empregada doméstica, o motoboy, o crente e o aspirante a jogador de futebol. É como se o roteirista fosse riscando uma lista de compras à medida que criava cada personagem, não dando a todos eles a devida atenção. Mais importante do que entendê-los é tê-los para compor o mosaico.

Levando em consideração que uma crítica não passa de um exercício de subjetividade, onde aquele que escreve se limita a discorrer sobre sua própria leitura do que vê na tela, tomando como base para essa interpretação suas experiências e convicções, detectei certa parcialidade na visão que Salles impõe a seus espectadores. Não sei se é intencional ou se, de repente, minha mente está enxergando algo além do que está sendo projetado na tela, mas não consigo apagar a imagem de condescendência do cineasta para com seus personagens. Eles parecem não cometer erros, mas quando o fazem, a culpa é dos outros. O crente agride porque é ofendido pelo patrão. O motoboy rouba porque cansa da anonimidade da vida por trás de um capacete. A doméstica fala mal da patroa porque não quer ser substituída por outra serviçal. O excesso de polaridade carrega o roteiro com um maniqueísmo que não condiz com a realidade que o filme quer traçar.

Assim como aconteceu em Não Por Acaso, a cidade de São Paulo se transforma em personagem que acrescenta um misto de caos e melancolia na vida de cada um. A cidade aqui é retratada com o acinzentado de uma metrópole quase decadente. Suas ruas abrigam a inquietude de um campo de batalha e a tranqüilidade de um deserto árido, dando a cada segundo um retrato único dessa que considero uma das capitais mais complexas e fascinantes desse mundo. A comovente cena final que mostra o desaparecimento de um ônibus no horizonte de concreto paulistano é uma das mais belas imagens que o cinema nacional concebeu nos últimos anos. É a inocência e a esperança indo de encontro com a dureza da vida real. E o resultado desse embate é um dos mistérios que precisamos desvendar.