4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
(4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Romênia, 2007)
Direção: Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alexandru Potocean, Ion Sapdaru, Teodor Corban
Na Romênia da década de 80, dominada pelo regime comunista, duas colegas de quarto de uma universidade pública preparam as malas para um destino incerto. Elas se preocupam com detalhes mundanos como a marca do sabonete que devem levar ou o secador que foi emprestado a uma amiga, mas nota-se uma tensão pairando no ar. Elas não falam sobre o assunto abertamente, mas o nervosismo é visível. A quantidade de dinheiro que carregam e a forma evasiva como uma delas trata o namorado sugerem alguma atividade suspeita. Mas, até que a dura realidade seja revelada, a única coisa que resta ao espectador são conjecturas.
Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, esse drama romeno é o tipo de filme que, quanto menos se souber sobre ele, melhor. Durante sua primeira metade, a história se limita a lançar pistas para que o espectador tente deduzir as circunstâncias por trás das ações de suas personagens. Até mesmo seu título serve de indício sobre o que está para acontecer. Quando a verdade é apresentada, ela chega como um tiro à queima-roupa e enche
de angústia uma atmosfera já pesada. E, à medida que a situação se agrava, aumenta ainda mais o nosso sentimento de claustrofobia e desespero.
O que mais impressiona em 4 meses, 3 semanas e 2 dias é a simplicidade de sua linguagem narrativa. A câmera permanece praticamente estática enquanto o drama se desenrola à sua frente. Os cortes são econômicos e precisos, mesmo quando seus protagonistas saem de quadro. E, nas tomadas noturnas, o diretor não se envergonha de imergir sua obra na mais completa escuridão. Ainda assim, o filme consegue compor alguns planos de uma beleza extrema, como na seqüência em que, sem se mexer, a câmera acompanha a luta de uma das personagens para conseguir pegar um ônibus que passa debaixo de uma passarela.
Os atores também ganham destaque em uma obra onde tudo é tratado com muito naturalismo. Os longos planos estáticos exigem de seus intérpretes uma concentração elevada e uma facilidade
para o improviso. Afinal, cada erro pode significar o recomeço de uma cena trabalhosa. Um trecho que me chamou a atenção é aquele em que uma das moças vai para a festa de aniversário da mãe do namorado. Enquanto os pais e convidados conversam e passam a comida de um lado para o outro, a pobre coitada, no centro da mesa, não consegue esconder seu desconforto. O constrangimento estampado em seu rosto é, ao mesmo tempo, engraçado e angustiante.
Em alguns momentos, o filme parece querer flertar com o suspense ao deixar certos elementos do gênero soltos no ar, sem nenhuma utilidade futura. E seu desfecho repentino desperta um amargo sentimento de frustração. Mesmo assim, essa produção chega como um colírio aos olhos daqueles que se acostumaram ao cinema clipado e pirotécnico que enchem as atuais salas de projeção. Em uma sociedade obcecada pela imagem, 4 meses, 3 semanas e 2 dias é a demonstração de que, para se ter um bom filme, basta ter um elenco afiado e uma história envolvente. O resto é enfeite.
