Arquivo da categoria ‘Cinema Britânico’

A Duquesa

Novembro 26, 2008

duquesa-posterA Duquesa
(The Duchess, Reino Unido/ França/ Itália, 2008 )

Direção: Saul Dibb
Elenco:
Keira Knightley, Ralph Fiennes, Hayley Atwell, Charlotte Rampling, Simon McBurney, Dominic Cooper, Aidan McArdle

Ser feliz. Desde os primórdios da civilização, esse, provavelmente, tem sido o objetivo do ser humano ao longo de sua existência. Essa é a promessa feita pela jovem e inocente Georgiana à mãe quando descobre que recebera uma proposta de casamento do Duque de Devonshire (Ralph Fiennes). Mas o que ela – e a grande maioria dos seres humanos – parece não perceber é que ninguém, até hoje, conseguiu encontrar uma receita para tal empreitada. Alguns acham que é o dinheiro, outros preferem poder, alguns se arriscam no amor, mas a verdade é que ninguém sabe. Isso porque a felicidade, assim como sua contrapartida, não são elementos que definem um estado constante de espírito. Não se pode ser feliz, e sim estar feliz. Esses sentimentos são passageiros como o tempo, e nós, passageiros desse tempo.

Essa meta ilusória é o suficiente para encher de esperança e empolgação uma puritana que passou grande parte da vida guardada embaixo das asas maternas. Quando finalmente se confronta com a realidade, o choque é enorme e inevitável. Para uma mente menos aventureira, isso seria o suficiente para lançá-la a uma rotina de submissão completa. Mas seu espírito inquieto a faz desafiar os protocolos impostos pela sociedade hipócrita em que se encaixou, transformando-a em uma personagem de extrema relevância para as mudanças que estavam por vir.

duquesa-1Ser o elemento de mudança é uma tarefa sofrida. Enfrentar toda uma comunidade em busca de um ideal é pedir para encarar as formas mais cruéis de rejeição e abandono que um ser humano pode suportar. Afinal, apesar de ser usada em alguns discursos mais engajados como algo benéfico, mudança é a última coisa que o ser humano procura, principalmente quando tudo corre bem. Mas a ingênua duquesa não desiste. Quando confrontada com a traição de seu marido bem embaixo de seu nariz, sua proposta reacionária vem como um soco na boca do estômago de uma sociedade acostumada a olhar para o outro lado quando o assunto é o adultério masculino. E a sua luta para propagar o conceito de liberdade incondicional também pega a nobreza desprevenida. É claro que uma pessoa solitária não consegue implementar mudanças radicais de forma instantânea, mas ajuda a plantar a primeira semente.

Ao assistir A Duquesa e testemunhar as diversas agruras que sua personagem é obrigada a suportar, é praticamente impossível não voltar a mente para cena em que a mesma divaga sobre a ilusão de liberdade. Gostamos de acreditar que somos seres livres para seguir o caminho que quisermos. Isso não deixa de ser verdade, até mesmo naquele conservadorismo da época. Mas o preço da liberdade é muito mais alto do que a maioria está disposta a pagar. As correntes de outrora deram lugar a elos mais abstratos e variados que, muitas vezes, nos prendem a uma situação indesejada. Mas a alternativa parece mais dolorosa.

duquesa-21A Duquesa é um típico filme de época que cai muito bem em uma realidade em que o videoclipe parece reinar até mesmo no cinema. Além de ser impecável em todos aqueles aspectos comuns ao gênero, como figurino e direção de arte, o filme acerta em cheio ao investir em planos mais abertos, onde o espectador consegue respirar todo o glamour daquele período, e em cenas mais reflexivas, onde o silêncio impera absoluto. A produção conta ainda com um elenco invejável, incluindo Keira “Sorriso de Pequinês” Knightley, que já se tornou uma especialista no comando de um espartilho, e o sempre competente Ralph Fiennes, que consegue alterar momentos de extrema ira com outros de pura serenidade sem que essas alterações percam a coerência.

Curiosamente, historiadores ingleses traçam uma herança genética entre a duquesa do filme e a falecida Lady Diana, elo que inclusive foi explorado pelo trailer britânico, como pode ser conferido abaixo. É como se no gene da família residisse um cromossomo que impelisse suas mulheres a quebrar as barreiras do conservadorismo, mesmo sob um sacrifício pessoal muito grande. O resultado são duas histórias igualmente trágicas, mas com repercussões extremamente positivas.

Na Mira do Chefe

Outubro 19, 2008

Na Mira do Chefe
(In Bruges, Reino Unido/Bélgica, 2008)

Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier, Thekla Reuten, Jordan Prentice

Vivemos a era da reciclagem. Com o prognóstico do fim do mundo cada vez mais próximo, a necessidade de reaproveitarmos os recursos ainda existentes aumenta exponencialmente. Infelizmente, o que era verdade apenas para metais, papéis e afins, hoje virou rotina também na indústria cinematográfica. Uma idéia original é um ítem precioso entre aqueles que querem se arriscar no mundo da sétima arte. Aqueles que a encontram, a protegem com extrema cautela e tentam espremer da mesma tudo o que ela tem para oferecer. Afinal, não se sabe nem quando nem se a próxima irá aparecer.

Pois marquem o nome de Martin McDonagh. Ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 2006 com o filme Six Shooter, ele marca a sua estréia como diretor de longas com um dos melhores filmes deste ano. Misturando na dose certa comédia, suspense e drama, ele constrói uma fábula deliciosamente inusitada sobre as aventuras de dois assassinos profissionais em uma pequena cidade do interior da Bélgica.

Colin Farrell vive o intrépido Ray, um aspirante a matador de aluguel que é enviado por seu chefe Harry (Ralph Fiennes), junto com o amigo Ken (Brendan Gleeson), à desconhecida cidade de Bruges depois de um serviço. O lugar é um recanto de turistas onde não se tem muito o que fazer a não ser ver monumentos medievais e passear de barco pelo canal que cruza a cidade. Para um integrante de velha guarda como Ken, a experiência pode se tornar algo relaxante. Mas para o espírito inquieto de um jovem irlandês como Ray, o tédio que o lugar exala é o equivalente a uma viagem sem volta para o inferno. Enquanto esperam ordens de seu empregador, os dois passeiam pelos pontos turísticos, fazem amizades e inimizades com os mais diversos tipos – inclusive um anão -  e até se arriscam no amor.

A capacidade de McDonagh de encontrar lógica e racionalidade nos elementos mais bizarros é assustadora. Tudo em In Bruges – me recuso a utilizar a péssima tradução brasileira – tem um propósito. Até mesmo aquelas cenas que parecem completamente injustificadas e gratuitas acabam fazendo sentido no final. Com o desenrolar da trama, a estranheza inicial dá lugar a um sorriso irreverente que se diverte com a constatação de que está diante de uma obra diferente. Uma obra que não tem medo de subverter alguns conceitos pré-determinados do público em troca de uma dose excessiva de originalidade.

A grata surpresa fica por conta da presença do pseudo-galã Colin Farrell nesta modesta produção, que não faz frente aos diversos filmes que já participou durante seu período em Hollywood. Depois de surpreender com uma atuação comovente no ótimo O Sonho de Cassandra, de Woody Allen, o ator irlandês volta a mostrar seu talento no papel do inexperiente e atormentado Ray. Mesmo nos momentos mais extrovertidos, ele demonstra uma certa amargura no olhar. E o eterno coadjuvante Brendan Gleeson nos brinda com um de seus melhores trabalhos na pele de um homem cansado de viver lado a lado com a morte e que encontra na cidade desconhecida seu momento mais terno.

In Bruges é um filme que beira a utopia. Ele é um filme em que os criminosos têm princípios, os assassinos têm consciência, as imagens possuem uma pitada de bucolismo e o amanhã vem recheado com a esperança de um novo começo. Passeando entre o céu e o inferno, é em Bruges que cada personagem descobre para qual dos dois está destinado.

Efeito Dominó

Setembro 29, 2008

Efeito Dominó
(The Bank Job, Reino Unido, 2008)

Direção: Roger Donaldson
Elenco: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, James Faulkner

O ator Jason Statham ganhou projeção internacional depois de protagonizar os dois primeiros filmes do aclamado cineasta britânico Guy Ritchie: Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes. A partir daí, ele se transformou, junto com o americano Vin Diesel, no sucessor dos heróis de ação anteriormente vividos por Schwarzenegger, Stallone, Van Damme e Seagal. Nos últimos anos, Statham trabalhou em diversas produções do gênero, como Carga Explosiva e Adrenalina, em que sua principal função era distribuir sopapos e soltar algumas piadas infames. Efeito Dominó marca seu retorno ao cinema britânico que o lançou e também comprova que, por trás da fachada de durão, se esconde um ator carismático, capaz de encabeçar projetos mais ambiciosos.

Ele vive Terry Leather, um criminoso de segunda categoria especializado em pequenos golpes que é convencido por uma antiga namorada (a insossa Saffron Burrows) a planejar um ousado assalto a banco. Para tal, ele junta sua trupe habitual, escala alguns colaboradores pontuais e coloca em prática uma arriscada empreitada que envolve a construção de um túnel que liga uma loja abandonada ao cofre de uma instituição bancária de pequeno porte que esconde segredos que colocam em risco integrantes do mais alto escalão britânico. Tudo segue conforme planejado mas, na hora de dividir os espólios do roubo, a gangue descobre que está envolvida em uma confusão muito mais séria do que poderia imaginar e eles passam a ser perseguidos por todos os lados por pessoas dispostas a tudo para botar as mãos em informações valiosas escondidas naquele cofre.

O segredo de transformar personagens tão questionáveis em pessoas empáticas é sempre mostrá-los como seres humanos, acima de tudo. Eles não são apenas bandidos. Eles vão além de meros golpistas. Eles são pais, maridos e filhos. Pessoas comuns que tentam cuidar de seus familiares da melhor forma possível. Um deles chega a tentar a vida no mercado pornográfico. É claro que isso não justifica suas atitudes, mas ajuda a entendê-los melhor. Afinal, é da natureza humana torcer para o bandido quando o mesmo luta por um ideal louvável. É a síndrome de Robin Hood – personagem britânico, por sinal – que se alastra pelo espírito dos menos afortunados que vêem na desobediência civil uma forma de represália pela miséria que são obrigados a suportar.

O roteiro afiado constrói com uma precisão cirúrgica uma trama que gradativamente se complica à medida que o grupo descobre uma nova reviravolta. Um plano aparentemente simples se transforma em um buraco cada vez mais íngreme do qual encontrar a saída se revela uma tarefa praticamente impossível, deixando o espectador com uma constante sensação de angústia. Pena que o desfecho, onde todas as questões precisam ser resolvidas de forma satisfatória, pareça tão anticlimático. Um enredo tão rocambolesco merecia uma solução mais criativa e inusitada. Nada que comprometa o resultado final, mas não deixa de ser um pouco frustrante.

Efeito Dominó é um típico exemplar do cinema entretenimento “made in England” que tem surpreendido o mundo com suas tramas simpáticas, enredos envolventes e um visual de primeira linha. Seja na comédia, no drama ou até nos filmes de ação, o Reino Unido tem mostrado que a diversão não é mais uma exclusividade da indústria americana. Os súditos da rainha também sabem ser durões, sabem bater e sabem falar difícil, usando as mais rebuscadas gírias que somente os nativos conseguem compreender. A grande diferença é que, por trás de toda aquela fleuma britânica, reside uma irreverência natural que impede que o inglês se leve muito a sério. O resultado é a existência de uma pitada cômica até nos momentos mais contemplativos.