Direção: Andrew Stanton
Elenco: Ben Burtt, Elissa Knight, Jeff Garlin, Fred Willard, John Ratzenberger, Kathy Najimy, Sigourney Weaver
Era uma vez um planeta destruído por uma explosão nuclear… Não exatamente o tipo de história que sonhamos um dia contar para os nossos filhos. O gênero de animação, há anos, deixou de ser exclusivo para o público infantil. Com o constante avanço da tecnologia, os antigos desenhos animados deram lugar a pequenas obras-primas que enchem a tela com imagens de tirar o fôlego. Produções como Shrek, Os Incríveis e este Wall-E são exemplos de filmes que almejam atingir um público mais maduro, que conseguem detectar as pequenas nuances escondidas ao longo de um roteiro bem estruturado.
Os primeiros vinte minutos de projeção de Wall-E é uma verdadeira aula de cinema. Com um estilo quase “chaplinesco” de se contar uma história, o filme compõe imagens belíssimas para narrar as aventuras de um pequeno robô em um planeta assolado pela destruição. Como sua função inicial era a de compactar lixo para que o mesmo depois fosse mandado para o espaço, ele continua sua rotina diária durante anos de solidão, o que resulta em uma linda mas deprimente paisagem. Sua melhor amiga é uma barata, o único ser vivo imune às radiações presentes no planeta. Juntos, eles se refugiam em um pequeno abrigo, onde passam a noite assistindo musicais antigos.
Curiosamente, com o passar dos anos, o ingênuo robô adquire personalidade e começa a agir como uma criança que vê o mundo pela primeira vez. Sua curiosidade é tão aguçada que ele guarda todos os objetos desconhecidos que encontra na esperança de um dia descobrir sua utilidade. Ele grava os sons e as músicas que considera interessante para poder ouvi-las depois. Sua tranqüilidade é interrompida quando recebe uma inesperada visita de um robô mais avançado chamado EVE. O propósito de sua visita é encontrar algum tipo de ser vivo no meio de tanta destruição.
Wall-E se apaixona imediatamente por essa máquina extremamente temperamental, que não hesita em usar sua poderosa arma quando se sente ameaçada. É claro que EVE não corresponde a esse sentimento, uma vez que não sofreu a evolução adquirida durantes anos de abandono. E a comunicação entre os dois é dificultada pela sua enorme diferença de idade. Mas, aos poucos, eles vão se entendendo. Quando EVE volta para casa, Wall-E a persegue em nome do amor, desencadeando uma série de eventos que mudará a história da humanidade pra sempre.
A capacidade de recriar as expressões mais humanas e sobrepô-las em um robô funciona de forma assustadora. Com apenas um pequeno movimento de olho, o espectador já sabe o que cada personagem está sentindo, sem a necessidade de um diálogo sequer. E a inocência do protagonista é tão pungente que arranca suspiros até do mais carrancudo dos marmanjos.
O filme perde um pouco de ritmo quando entra no mundo dos humanos, acomodados em um retiro espacial onde as máquinas fazem tudo para eles, inclusive andar. Obeso, anestesiado e indiferente ao que acontece ao seu redor, o homem se transformou em um parasita incapaz de um raciocínio próprio. É nesse momento que Wall-E tenta criar um clima de suspense que não convence e um protótipo de vilão que pouco assusta. Uma produção tão inventiva poderia ter fugido da tentação de cair em fórmulas velhas e ultrapassadas.
Mesmo assim, Wall-E já se coloca entre as melhores produções do ano. Com um visual deslumbrante, uma história comovente e um dos personagens mais carismáticos do cinema recente, este é um filme para se ter e guardar. Nem que seja para servir de registro de que, um dia, circulou por este planeta uma vida inteligente…

