O maior benefício que os videoclipes acabam por trazer para o cinema é a liberdade que se tem para experimentar. Em um clipe, não existem limites para a criatividade de um cineasta. Pode-se abusar de sequências computadorizadas, animações tridimensionais e outros recursos digitais porque não há a necessidade de se contar uma história coerente. E esses experimentos, mais tarde, podem ser utilizados de forma mais pontual pela sétima arte para criar cenas exuberantes que deixam o espectador com o queixo caído. O perigo, muitas vezes, é que alguns desses realizadores esquecem que estão lidando com uma nova linguagem e que precisam se preocupar com outros aspectos relacionados ao cinema, como roteiro e atuação.
Em 2 Coelhos, longametragem de estréia do publicitário Afonso Poyart, o inexpressivo Fernando Alves Pinto vive o perturbado Edgar, um jovem incomum que elabora um rebuscado plano para fazer aquilo que ele considera como justiça. Depois de se envolver em um acidente de carro que vitimou duas pessoas inocentes, ele resolve assumir as rédeas de um ambicioso estratagema que colocará bandidos impiedosos e políticos corruptos em uma explosiva rota de colisão.
O fragmentado roteiro do próprio Poyart tenta brincar de ser inteligente com suas idas e vindas onde a frágil trama é gradativamente exposta ao público. Mas a estratégia acaba se virando contra seu realizador quando, em diversos momentos, a necessidade de voltar ao passado para explicar alguma reviravolta quebra de forma vertiginosa o ritmo acelerado que tenta imprimir. Além disso, muitas personagens parecem ter comportamentos erráticos, que não condizem com sua natureza. Caco Ciocler, por exemplo, interpreta um professor idealista que, em uma cena, discursa sobre a corrupção que envenena o Brasil para, na próxima cena, empunhar uma arma e trocar tiros com bandidos para ajudar a pessoa que matou sua família.
A direção carregada de Poyart opta por fazer um salada de frutas visual, onde linguagens diferentes se misturam de forma gratuita e arbitrária, sem nenhum propósito para a história. As referências vão desde a super câmera lenta usada em 300 até animações tridimensionais que lançam o protagonista em um ficcional videogame ou em mangás japoneses. Quando o vilão da história manda buscar sua espada samurai de seu carro, é quase impossível não enxergar a influência Tarantina na sequência. Além de não trazer nenhum benefício para a história, o uso excessivo desses artifícios dá a impressão que o diretor tentou camuflar os enormes furos de seu roteiro com inserções aleatórias de ícones da cultura contemporânea.
Detecta-se, em 2 Coelhos, a honestidade de um diretor que quer trazer algo de novo e de diferente para um cinema brasileiro que, cada vez mais, valoriza a importância de produções comerciais. Pelos seus esforços, ele até merece uma menção honrosa. Mas, depois de filtrados as boas intenções e o excesso de estilo visual, o que resta é uma história frágil que padece com o passar do tempo e que, em vez de matar os dois coelhos do ditado, acaba por deixá-los escapar por entres as lacunas que formam sua história.
