Ir ao cinema é um exercício de perdão. Quando opta-se por gostar ou não de um novo filme, o que na verdade está se fazendo é aceitar ou não seus erros e fragilidades. Assim como acontece com o ser humano, que se ama apesar dos defeitos e não pelas qualidades, o mesmo pode ser dito em relação à sétima arte (ou qualquer outra).
A dura realidade é que não existe uma obra perfeita. Quando passado o pente fino, qualquer produção está sujeita à natureza falha de seus realizadores. Quantas vezes vê-se alguém elogiando a fotografia ou a direção de um determinado filme enquanto o roteiro e a história são estrategicamente ignorados? Costuma-se ser mais compreensivo com um cineasta que figura na sua lista de favoritos, perdoando eventuais deslizes, do que com outros mais anônimos. Muitas vezes elogia-se seu trabalho de forma até exagerada só por ser o mais novo projeto de um aclamado diretor enquanto se é implacável com outras obras que mereciam um pouco mais de tolerância e imparcialidade.
À Beira do Abismo é um filme muito fácil de se criticar. Ainda não li nenhuma matéria sobre o mesmo, mas já consigo imaginar a quantidade de resenhas negativas que ele receberá. E muito desses ataques se devem mais a uma resistência de se elogiar um filme de entretenimento puro do que a uma autêntica insatisfação com a obra. É como se as pessoas se sentissem culpadas de se divertir com um espetáculo tão raso e superficial. E é isso que À Beira do Abismo entrega aos espectadores que estiverem dispostos a passar por cima de uma série de improbabilidades contidas em seu roteiro: um espetáculo divertido e envolvente.
Um homem misterioso (Sam Worthington, de Avatar) aluga um quarto de um luxuoso hotel em Nova York e pede um generoso prato de café da manhã. Logo em seguida, ele limpa o quarto de qualquer vestígio de suas digitais, abre a janela e se posiciona no parapeito do edifício, ameaçando se matar. A polícia em pouco tempo cerca o local e uma negociadora (Elizabeth Banks) é chamada para tentar convencê-lo a não se jogar. O que ela não sabe é que o suposto suicida, na verdade, é o idealizador de um elaborado plano que tem como principal objetivo provar sua inocência de uma acusação de roubo que lhe custou uma pena de 25 anos de prisão.
Fica claro, desde o começo, que À Beira do Abismo não é uma produção para se levar a sério. Seu objetivo parece ser o de resgatar o bom humor e a tensão dos filmes policiais da década de 80, sem nenhum compromisso com o realismo. Para isso, investe em um roteiro tenso e intrigante, onde problemas são expostos e resolvidos com grande originalidade e onde o dinamismo é tão intenso que, apesar da história se passar em um ambiente limitado, a ação aparenta ininterrupta.
É claro que o filme está infestado de clichês, como a policial que possui um trauma com um antigo caso onde uma pessoa acabou se matando ou um canastrão vilão (na pele de um caricato e envelhecido Ed Harris) que personifica a malignidade do capitalismo americano. Há até um momento deus ex machina, onde nosso herói é salvo, mais de uma vez, por intervenções que mais parecem obras de um ser superior. Mas, apesar de todos seus defeitos, eu não posso negar que fiquei entretido durante a sessão. O que mais pode se exigir de uma obra como essa? Afinal de contas, ninguém é perfeito.
