O que fazer quando o principal filme de sua carreira concorre a uma série de prêmios internacionais, incluindo o Oscar de filme estrangeiro e a Palma de Ouro de Cannes? Para o diretor francês de origem argelina Rachib Bouchareb a resposta é muito simples: não se mexe em time que está ganhando. Depois do sucesso do ótimo Dias de Glória, que mostrava a contribuição de soldados africanos ao exército francês durante a segunda guerra mundial, ele resolveu recorrer aos mesmos atores, dar a suas personagens os mesmos nomes e revisitar o tema do preconceito na França do pós-guerra. E a fórmula parece ter dado resultado, pelo menos no que diz respeito a prêmios. Apesar de repetir as indicações de seu antecessor, Fora da Lei é um filme inferior que sofre com a falta de foco e com as grandes elipses de seu roteiro.
Quando os três irmãos Saïd (Jamel Debbouze), Messaoud (Roschdy Zem) e Abdelkader (Sami Bouajila) são expulsos, ainda crianças, da terra que seus antepassados nasceram e morreram, o sentimento é a de perda de identidade. De não pertencer a lugar nenhum. Anos mais tarde, esse mesmo sentimento se instala quando seu país, a Argélia, luta para se livrar da colonização francesa e se estabelecer como uma nação independente. Messaoud vai para a guerra, defender seus colonizadores. Saïd se muda para a França com a mãe onde ganha dinheiro com atos ilícitos. Abdelkader vai para a prisão depois de participar de uma passeata reivindicando a liberdade argelina.
Os três irmãos se encontram anos mais tarde e, liderados por Abdelkader, decidem iniciar uma revolução armada em busca da independência da Argélia. Saïd é o mais reticente por acreditar que a melhor forma de atingir o inimigo é ganhar dinheiro e prestígio. Seu sonho é colocar um argelino como campeão de boxe francês. Mas os outros dois irmãos possuem ideais mais patrióticos e não pouparão esforços para garantir a liberdade de sua nação, nem que para isso sujem as próprias mãos com o sangue de seus opressores.
Há de se aplaudir a apurada produção dessa obra com ambições épicas. Em muitos momentos, ela se assemelha aos filmes de gângster de Scorsese, com sua reconstituição de época minuciosa e cenas de ação vertiginosas. Os atores estão à vontade em papéis que dominam sem muito esforço e a fotografia investe em uma atmosfera meio envelhecida, com um tom desbotado que nos faz viajar no tempo. Mas se tecnicamente o filme é impecável, o mesmo não pode ser dito do roteiro.
Roteiro, muitas vezes, funciona como uma melodia. Para que a mesma funcione, é preciso saber quando estender uma nota, quando fazer uma pausa, quando acelerar o ritmo. Qualquer falha em um desses elementos e o resultado é um produto inaudível, que nossos cérebros rejeitam por não fazer sentido. É aí que Bouchareb perde o controle de seu projeto. Apesar de possuir uma história promissora e bem intencionada, as elipses que insere em sua trama parecem engolir os momentos mais interessantes para investir em outros sem muita importância aparente. Por exemplo, o fato de Messaoud e o inspetor que o persegue terem lutado juntos durante a guerra poderia ter sido melhor trabalhado para intensificar o conflito de cada uma dessas personagens. O que se vê é apenas uma cena isolada que fracassa ao estabeler esse elo entre os dois. O enriquecimento ilícito de Saïd também parece repentino e arbitrário. Escolhas como essas acabam por enfraquecer as personagens e afetam até mesmo o ritmo do filme por diminuir o interesse que o espectador desenvolve pela história.
Não dá para negar que Rachid Bouchareb é um cineasta excepcional. O controle que possui sobre a imagem e a capacidade de elaborar sequências grandiosas o colocam como um dos grandes diretores europeus em atividade. Só lhe resta agora a humildade para delegar o roteiro para pessoas mais gabaritadas que possam transformar sua história em algo mais envolvente. Quem sabe, quando isso acontecer, ele pode finalmente abocanhar o Oscar e a Palma de Ouro que por duas vezes escaparam de suas mãos.
