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Quando necessário escolher, sempre dou preferência à esperança no lugar do ceticismo. Ainda assisto aos novos lançamentos de Nicolas Cage, por exemplo, mesmo depois dos inúmeros fiascos que tem protagonizado. Existe uma parte de mim que opta por acreditar que o próximo trabalho será melhor. A seguir-se essa toada, não vai demorar muito para que eu acerte pois há pouco espaço onde piorar. O mesmo pode ser dito de Steven Spielberg, cineasta que, durante anos, figurou na minha lista de diretores preferidos. Infelizmente, suas últimas obras, com raras exceções, tem se mostrado irregulares e preguiçosas, alternando momentos de extremo apuro técnico com outros de melodramaticidade excessiva.
Cavalo de Guerra é uma adaptação de um livro infantil que acompanha a árdua jornada de um cavalo para reencontrar seu dono em um período de guerra. Comprado a preço de ouro pelo fazendeiro Ted (Peter Mullan) que fora a um leilão para arrematar um cavalo mais forte para puxar seu arado, o pequeno potro desperta imediatamente o interesse do jovem Albert (Jeremy Irvine), que o batiza com o nome Joey. Mesmo sem possuir o porte físico para executar tarefas domésticas, Joey demonstra um espírito invejável, capaz de superar as mais desafiadoras adversidades.
Depois de uma tempestade que arruina com toda a plantação de sua fazenda, Ted se vê obrigado a vender o amado cavalo para o exército, que precisa dos animais em sua luta contra os alemães. A troca de donos a partir de então se faz frequente, obrigando esse improvável herói a passar pelas mais sofridas experiências para conseguir sobreviver uma guerra ingrata e implacável.
Spielberg, não há como negar, trabalha a imagem como um calejado veterano. Alguns planos, elaborados com requinte artesanal, nos remete ao período áureo do diretor, que nos brindava com uma obra-prima após a outra. Como não se impressionar com a sequência em que testemunha-se a execução de dois jovens por trás das pás que movem um moinho? Ou então a desfolegada corrida de Joey pelo devastado campo de batalha coberto por arames farpados? Spielberg até arrisca alguns simbolismos ao usar a terra como alusão ao sofrimento, seja no duro trabalho de arar a lavoura ou na impiedosa rotina dentro das trincheiras. Vestígios de um habilidoso mestre que, vez ou outra, usa seu toque refinado para demonstrar que ainda está vivo mas que não possui forças para fazê-lo durante toda a projeção.
Estivéssemos nós falando de um iniciante, qualquer erro ou excesso seria atribuído à inexperiência de um novato carente de rodagem. Abusos são mais difíceis de perdoar quando se sabe da capacidade da pessoa por trás da obra. O novelão mexicano que inaugura a meia hora inicial da história, com atuações carregadas de açúcar, é um bom exemplo da mão pesada que Spielberg lança sobre seu filme. O que dizer então do exagerado céu alaranjado de Photoshop que pontua os momentos que antecem os créditos finais? Ou a melosa trilha sonora que insiste em dizer ao espectador o que ele deve sentir a cada momento? Equívocos que esse mesmo cineasta não cometeria há 20 anos atrás, quando sua ousadia falava mais alto que sua resignação.
Um futuro promissor negado, muitas vezes, é mais trágico que uma dura realidade. A crítica que se faz a Cavalo de Guerra não é um ataque ao filme que ele é, e sim ao filme que ele deixa de ser. Nota-se nas entrelinhas a respiração ofegante de uma história que merece ser contada. Mas as mesmas entrelinhas revelam o pulso desfalecente de um diretor que outrora reinou absoluto em um império que ajudou a construir. Continuo alimentando minha esperança de um breve retorno, em grande estilo, para acalmar os descrentes de seu talento. Mas essa esperança é mais fruto do meu otimismo exacerbado do que de minha experiência cinematográfica.
