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Existem momentos na história da humanidade que ficam marcados para sempre em nossa memória, como um ferro quente que queima a pele e lá deixa sua cicatriz eterna. Imagino que todos nós temos uma imagem nítida de onde estávamos quando soubemos dos atentados do dia 11 de setembro. Assim como nossos pais devem se lembrar da transmissão do pouso do primeiro homem na Lua. E a jovem Rhoda Williams (Brit Marling) nunca se esquecerá o que estava fazendo quando o mundo descobriu da existência de um outro planeta, idêntico à Terra, que se aproximava de nossa órbita.

Após ser aceita na conceituada universidade de MIT, a moça resolve sair para comemorar com os amigos. Na volta, um radialista noticia a recente descoberta desse outro planeta, apelidado de Terra 2, e ela decide olhar para o céu para enxergar o astro azul. É nesse exato momento que seu carro colide com o veículo dirigido pelo músico John Burroughs (William Mapother), matando seu filho e sua mulher grávida. Depois de passar quatro anos na prisão pelo acidente, Rhoda sai da cadeia e tenta conviver com sua consciência que não a deixa descansar. Sua inquietude a faz participar de um concurso que irá escolher os privilegiados que irão integrar uma missão espacial para conhecer nossos novos vizinhos.

Muitos cientistas pregam a existência de uma infinidade de universos paralelos onde versões alternativas de cada ser humano tomam decisões diferentes a todo o instante, gerando um mundo completamente distinto. O que fazer então quando um desses universos fica ao nosso alcance? O que falar quando confrontado com uma nova versão de nós mesmos? Será que ela cometeu os mesmos erros que nós? Será que ela é mais feliz ou realizada? Divagações como essa é apenas o começo de uma série de questões levantadas pelo brilhante roteiro do cineasta Mike Cahill.

Roteiro este que, apesar de flertar com a ficção científica, nunca se esquece que está narrando uma história dramática, sobre dois seres humanos sofridos que tentam superar a dor de uma vida repleta de perdas. De um lado, uma jovem que não consegue escapar do sentimento de culpa que insiste em lhe perseguir. Do outro, o músico deprimido que se entrega a um estado de letargia pura, onde não encontra forças nem para sair da cama. A colisão entre esses dois mundos acaba servindo de alusão para o encontro de dois planetas idênticos por fora mas diferentes em seu conteúdo.


Visualmente falando, Another Earth trabalha o conceito desse novo universo como uma assombração pairando em nossas cabeças. Entre uma cena dramática e outra, vemos o novo planeta como uma entidade viva que parece nos atrair para sua órbita enquanto cada personagem tentar dar continuidade às suas vidas. O céu se transforma em um painel que mistura esperança e terror e que desperta em nossa sociedade as mais diversas reações.

Os relativamente desconhecidos William Mapother (primo de Tom Cruise) e Brit Marling brilham em atuações discretas e extremamente minimalistas. O ar sofrido que transferem para suas personagens ajudam a construir cenas com grande apelo dramático. A sequência em que Rhoda conta a história de um cosmonauta russo ou a que Burroughs usa um serrote como instrumento musical com um som quase sobrenatural são de uma beleza impressionante.

Another Earth é um filme que, de tão simples, chega a dar raiva. É difícil acreditar que nenhum outro cineasta pensou em algo parecido em mais de um século de história. O final, além de brilhante e surpreendente, levanta uma série de outras questões que fazem o espectador pensar sobre o assunto muito depois da sessão terminar. Enquanto muitos críticos idolatravam o superestimado Melancolia, que trata de um tema ligeiramente parecido, esse filme entrou e saiu de cartaz nos Estados Unidos sem gerar tanto alarde. Uma grande injustiça que, quem sabe, está sendo corrigida em algum outro universo.