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Já não é de hoje que a Escandinávia vem conquistando um espaço cada vez maior dentro do univero artístico internacional. Primeiro, na literatura, com obras surpreendentes de escritores que se tornaram referências no gênero policial como Stieg Larsson, responsável pela trilogia Millennium que ganhou uma adaptação em seu país de origem e cujo primeiro capítulo, O Homem que não Amava as Mulheres, foi refilmado por David Fincher e conta com Daniel Craig no elenco. Depois veio a televisão, com o maravilhoso The Killing, que também ganhou uma ótima versão americana. E agora, a sétima arte também se rende a obras que se destacam pelo ritmo incessante, pelo intrigante clima sombrio e por roteiros precisos que mantém o espectador em um constante estado de tensão.

Hodejegerne (Headhunters, traduzindo para o inglês), adaptação do livro do consagrado autor norueguês Jo Nesbo, conta a história de Roger Brown (Aksel Hennie) um profissional especializado na área de realocação de grandes executivos que trabalha paralelamente como ladrão de obras de arte para complementar sua renda e sustentar sua luxuosa vida com a esposa Diana (Synnove Macody Lund). Quando o casal conhece o sedutor Clas Greeve (Nikolaj Coster-Waldau, do seriado Game of Thrones), Roger vê no jovem executivo o profissional perfeito para ocupar o cargo de presidente de uma empresa de telecomunicações, além de ser o proprietário de uma rara obra de arte que vale milhões e que desperta o interesse do ambicioso ladrão. É claro que as coisas não correm conforme o planejado e Roger acaba vítima de uma exaustiva caçada em que tem que usar todo seu intelecto e instinto de sobrevivência para sair vitorioso.

A adaptação de uma obra literária é sempre um desafio até para o mais habilidoso dos cineastas por se tratar de duas linguagens completamente diferentes. A força de um romance reside em sua capacidade única em expressar os conflitos internos de suas personagens. No cinema, não há espaço para isso. Como se trabalha com a imagem, o diretor não possui a mesma liberdade de entrar na mente de uma pessoa e revelar o turbilhão de emoções que lá se oculta. Geralmente quando se tenta executar essa façanha é que o filme costuma se perder. Aqui, o diretor consegue escapar dessa armadilha investindo no movimento constante. Hodejegerne não para em um momento sequer. Ele só interrompe a ação quando tem certeza que vai conseguir transmitir os sentimentos de suas personagens com precisão. A cena em que Roger assiste um grupo de crianças brincando e logo em seguida pega seu telefone é um bom exemplo. Não há nenhum diálogo ou narração durante a sequência, mas sabemos exatamente para quem ele vai ligar e o que ele vai falar.


Eu, particularmente, adoro um bom anti-herói. Eu prefiro sempre acompanhar a jornada de uma personagem falha, de caráter questionável, mas humana do que testemunhar a trajetória de uma pessoa perfeita, isenta de erros e fragilidades. Os heróis são muito chatos e o que é pior, nos fazem sentir como seres inferiores. O problema é que o anti-herói precisa ser empático. Como esperar que o público torça para um ladrão de obras de arte que trai a própria esposa? Simples. Faça-o uma pessoa insegura, com a necessidade de aprovação constante. Faça-o um homem que vive aquém de sua capacidade para manter um casamento do qual ele não se sente merecedor. Quem de nós nunca olhou para o lado e se questionou se somos dignos da pessoa que nos acompanha?

É preciso admitir que o roteiro se apoia em algumas situações absurdas que requer uma certa tolerância de seu espectador. A maior delas talvez seja a criação do GPS mais inusitado da história do cinema. E o filme também apela para algumas narrações e flashbacks que se mostram desnecessários e redundantes. Mesmo assim, Hodejegerne é um suspense eletrizante que está anos-luz a frente de seus concorrentes americanos e que ajuda a elevar o cinema policial escandinavo a novos patamares.