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Realizar uma comédia cujo tema principal é a luta de um jovem contra uma rara forma de câncer é um desafio corajoso. Qualquer pequeno escorregão e o filme corre o risco de invadir o território do mau gosto, despertando um sentimento generalizado de alienação.  E a escalação do abobalhado Seth Rogen, que costuma integrar comédias de gosto duvidoso, não ajuda a aumentar a confiança sobre esse projeto. Felizmente, 50% consegue escapar de todas as armadilhas presentes nesse árduo percurso e entrega ao público um filme sensível e bem humorado.

O jovem Adam (Joseph Gordon-Levitt) leva uma vida monótona. Sua rotina consiste em dar sua corrida matinal, se despedir da namorada Rachael (Bryce Dallas Howard) e ir para o trabalho onde prepara programas de rádio que ninguém escuta. Após sentir uma dor nas costas, ele decide procurar um especialista e descobre que tem um tumor em sua coluna. Sua reação ao receber a notícia não poderia ser mais irreverente. “Um tumor? Isso não faz sentido. Eu não fumo. Eu não bebo. Eu reciclo”.

Ele pesquisa na internet suas chances de vencer a batalha contra a doença e descobre que elas são de 50%. O filme então decide acompanhar cada fase da vida do rapaz após o diagnóstico. Sua decisão de como, quando e para quem contar a fatídica notícia. O tratamento psiquiátrico com a jovem Katherine (Anna Kendrick). Sua crescente revolta com a doença que só parece piorar. Sua amizade com outros convalescentes, os únicos que entendem pelo que está passando. A cena, por sinal, em que cada paciente se identifica por seu tipo específico de câncer é impagável.

Por se tratar de uma história contada a partir do ponto de vista de Adam, eles está presente em quase todas as cenas do filme. Sendo assim, a escolha do ator para protagonizar essa personagem é de crucial importância. Se o público não simpatizar com ele, nada na trama funciona. E Joseph Gordon-Levitt se revela a pessoa perfeita para viver Adam. Esse versátil ator, cujo papel mais notório havia sido o de um dos alienígenas no seriado Third Rock from the Sun, nos presenteia com uma atuação inspirada. Ele possui um ar melancólico sem, em nenhum momento, parecer patético. Curiosamente, ele aceitou esse trabalho dois dias antes do começo das filmagens, quando o ator originalmente escolhido desistiu por problemas pessoais. Sorte para Levitt que já ganhou uma indicação para o Globo de Ouro e deve figurar no rol de atores do primeiro escalão a partir de agora.


O roteiro do estreante Will Reiser beira a perfeição. Seu senso de ritmo é impecável, alternando comédia e drama na medida certa. Sua habilidade pode ser detectada, entre outras, na cena em que Adam usa sua doença para paquerar garotas. Ele primeiro constrói uma bem humorada sequência onde o rapaz se esforça para levar uma garota para a cama. Na cena seguinte, testemunhamos o efeito devastador que o ato sexual tem sobre seu corpo. Não há exageros, nem pieguice. Tudo é realizado com muita delicadeza e sobriedade.

Comédias honestas como essa estão cada vez mais escassas em uma indústria que prefere investir no riso fácil. Fazer rir de uma doença como o câncer não é uma tarefa para qualquer um. Definitivamente, não existe nada de fácil nessa empreitada. Mas 50% acerta onde a grande maioria das produções do gênero fracassa. Ele é sensível sem ser melodramático. É engraçado sem ser apelativo. E é simpático sem ser irrelevante.