O Leitor
(The Reader, 2008, EUA/Alemanha)
Direção: Stephen Daldry
Elenco: David Kross, Ralph Fiennes, Kate Winslet, Lena Olin, Bruno Ganz, Jeanette Hain, Hannah Herzsprung
Em uma das cenas mais marcantes de O Leitor, uma perplexa Hanna Schmitz (Kate Winslet, no auge de seu talento) é interrogada por um juiz que questiona a veracidade das acusações de ter escolhido dez mulheres para serem transportadas para o campo de Auschwitz, onde posteriormente foram assassinadas. Sua resposta é honesta e contundente, “O que você teria feito?”. A ausência de uma resposta convincente por parte do acusador surge como uma prova de que a atribuição de culpa é uma tarefa árdua de se aplicar.
A Alemanha pós-guerra é um país mergulhado na vergonha dos atos cometidos durante a era Hitler. Em um polêmico julgamento em que seis acusadas respondem por crimes considerados hediondos pela nova geração, fantasmas saem do armário para assombrar uma nação marcada pelo passado. Em um discurso ideológico, um jovem estudante de direito declara que seus antepassados deveriam ter cometido suicídio em vez de cumprir ordens tão desumanas. Mas será que isso é uma visão realista? Não para Hanna, que não se envergonha de admitir seus atos, por mais incompreensíveis que eles pareçam.
Não que ela não carregue uma vergonha dentro de si. Mas esse segredo que guarda a sete chaves, preferindo enfrentar as piores conseqüências em vez de revelá-lo, não diz respeito a uma falha de caráter ou de julgamento. Ele é de origem mais humilde, mais humana. E o único capaz de salvar a vida dessa atormentada alma é o jovem Michael Berg (o talentoso David Kross), estudante de direito que, anos antes, tivera um tórrido romance com a acusada.
A iniciação sexual se deu quando ainda tinha apenas dezesseis anos de idade, enquanto Hanna já beirava os quarenta. As escapadelas sexuais eram alternadas por sessões literárias, onde Michael lia para a sua amada as mais diversas obras da literatura mundial. Como tudo que arde como chama, o caso chega ao fim depois de um tempo e Michael carrega a dor do abandono pelos anos que se seguem. Quando se depara com Hanna novamente – e, consequentemente, seus crimes – Michael não consegue esconder sua revolta que, junto com o amor que ainda nutre pela acusada, o deixa sem rumo. A decisão que toma vem acompanhada de uma culpa inclemente que carregará pelo resto da vida.
A princípio, O Leitor funciona como uma envolvente história de amor entre duas pessoas marcadas pela vergonha. Mesmo quando fica mais velho, Michael (agora vivido pelo sempre correto Ralph Fiennes) não consegue esquecer a influência que Hanna exerceu sobre sua vida. No entanto, insiste em esconder esse sentimento em alguma gaveta empoeirada de seu coração, com medo do que o mesmo possa significar em relação ao seu caráter. Sua impossibilidade de abordar o assunto o afastou de sua esposa e até de sua filha, transformando-o em uma pessoa apática e infeliz.
Mas O Leitor também funciona como um ensaio sobre a culpa. Não só daqueles que, como Hanna, participaram de atos atrozes que envergonharam uma nação. Ou então daqueles que preferiram fechar os olhos para o que estava acontecendo sob a esperança de que, desde que não participassem efetivamente da ação, estariam isentos de responsabilidade. Mas a culpa também de uma geração que precisou colher as sementes plantadas por seus antepassados. Uma geração que herdou da guerra uma imagem difícil de ser apagada. E que guarda dentro de si o medo de que um dia possa sofrer a mesma desumanização que hoje é o motivo de tanta vergonha.
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