O Curioso Caso de Benjamin Button
(The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008 )
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Julia Ormond, Elle Fanning, Elias Koteas, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Josh Stewart
Era uma vez um homem chamado Benjamin Button. Não é exatamente assim que começa o novo filme de David Fincher, diretor que nos trouxe obras memoráveis como Clube da Luta e Se7en, mas bem que poderia. Em seu mais novo projeto, Fincher nos brinda com uma deliciosa fábula sobre o efeito da passagem do tempo em nossas vidas. E, com isso, realiza a obra mais madura e sensível de sua invejável filmografia.
Livremente baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald, a história narra as aventuras de uma pessoa muito especial concebida no mesmo dia em que um relógio que marca a hora ao contrário é inaugurado em uma grande estação de trem de Nova Orleans. Por consequência desse fato, Benjamin Button nasce com uma peculiaridade: em vez de envelhecer, como todo mundo, ele nasce velho e rejuvenesce ao longo dos anos.
Abandonado pelo pai da porta de um asilo, Benjamin encontra no decrépito lugar o lar ideal para se adaptar à sua condição incomum. Enquanto todos esperam por sua inevitável morte, o jovem velho desafia a ciência e teima em ficar mais forte e sadio com o passar dos anos. Logo no começo de sua vida, ele conhece a pequena Daisy, uma criança adorável que desenvolve por Benjamin um
interesse especial. Apesar da diferença física, a idade mental é compatível e os dois se tornam grandes amigos.
Enquanto ele fica mais jovem, ela envelhece. O inevitável é que se encontrem no meio do caminho com a mesma idade. A amizade se transforma em algo mais intenso e significativo. Mas o que o futuro reserva para um casal com caminhos tão distintos? A resposta está escondida nas páginas de um diário que uma filha lê para sua mãe no leito de morte.
É curioso ver um cineasta como Fincher envolvido em uma história tão fantasiosa e bucólica. Acostumado a filmes com temáticas mais contemporâneas, ele não é o primeiro diretor que me viria à mente para uma obra desse gênero. Mas sua escolha se revela acertada à medida que imprime uma qualidade visual invejável à narrativa. Cada imagem, cada plano, cada fotograma parece conter uma vida que ultrapassa as fronteiras da tela. Mesmo o uso da computação digital é discreta, quase imperceptível, deixando espaço para que seus personagens brilhem de forma graciosa e fascinante.
E personagens fascinantes é o que não falta em Benjamin Button. Não só por seu protagonista, vítima de um mal que muitos considerariam uma benção, mas que, para ele, é uma maldição. Mas também por todos os secundários, portadores de pequenas nuances que os tornam memoráveis, mesmo que apareçam apenas por alguns minutos. Personagens como o pigmeu que se casou cinco vezes e teve a primeira esposa comida por canibais. Ou então o senhor que praticamente não lembra o próprio nome, mas sabe descrever todas as vezes em que foi atingido por um raio – um total de sete vezes – e pode prever uma tempestade através do cheiro. Ou até mesmo o capitão de um barco que queria virar artista e que resolveu destilar
sua criatividade no próprio corpo, tornando-se um tatuador. São personagens tão diferentes que só poderiam pertencer a uma história fantasiosa como essa.
Há um quê de Forrest Gump nas aventuras do personagem-título. Não à toa, ambos possuem o mesmo roteirista. A inocência pueril de seu personagem, as dificuldades enfrentadas em sua infância, o amor impossível, o medo da paternidade. Todos os elementos estão lá, mas tratados de forma tão sensível e honesta que suas semelhanças parecem se dissolver no espaço. Afinal, uma fábula nada mais é do que uma reinvenção de fórmulas utilizadas no passado para se criar algo novo. E Benjamin Button pode não ser uma história original, mas há algo de diferente em sua narrativa.
Muitos acham que envelhecer é uma injustiça. Esse sentimento, geralmente, vem acompanhado de uma insatisfação. Uma sensação de que a vida poderia ter sido melhor aproveitada. A realidade é que o tempo é inclemente, independente da forma como se apresente. É preciso, portanto, aprender a encontrar a beleza em cada estágio, e não perder tempo com a auto-piedade. Foi o que David Fincher fez. Ele soube amadurecer com sobriedade. E, assim, realizou sua grande obra-prima.
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