O Nevoeiro
(The Mist, EUA, 2007)
Direção: Frank Darabont
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Toby Jones, William Sadler
O diretor Frank Darabont não é um daqueles cineastas que tem o nome automaticamente reconhecido pelos freqüentadores de cinema, mas é o responsável por uma obra que, mesmo depois de quinze anos de sua concepção, ainda desperta o interesse dos cinéfilos de plantão. Para os que não sabem do que estou falando, me refiro a Um Sonho de Liberdade, pequena obra-prima americana que se transformou em clássico automático entre os amantes do cinema. Adaptação de uma obra de Stephen King que mostra a relação de amizade entre dois presidiários enquanto tentam sobreviver sua pena, o filme recebeu indicações ao Oscar e arrecadou uma bela grana ao redor do globo.
A parceria Darabont/King rendeu mais uma bela adaptação no também premiado À Espera de um Milagre, filme que lançou o grandalhão Michael Clarke Duncan ao estrelato e que também colecionou elogios por onde se aventurou. Um longo hiato se passou, com o insosso Cine Majestic sendo realizado no intervalo, e Darabont retoma esse casamento que rendeu obras tão conceituadas. Mas agora, em vez de procurar trabalhos mais dramáticos do escritor, o cineasta resolveu investir no terror, gênero pelo qual King é mais reconhecido e que também resultou em obras memoráveis como O Iluminado e Carrie – A Estranha. O resultado é um filme de terror dirigido com extrema segurança e sobriedade que consegue, a partir de uma idéia absurda, traçar um panorama angustiante da natureza humana.
Tudo começa quando uma pequena cidade é invadida de forma inexplicável por um denso nevoeiro que traz com ele seres desconhecidos que vitimam, um a um, aqueles que se arriscam atravessá-lo. Os poucos sobreviventes se refugiam em um mercado local e passam a procurar algum tipo de explicação para o que está acontecendo. O filme sugere alguma influência de uma base militar instalada na região, mas a verdade por trás do incidente nunca fica clara.
A partir daí, inicia-se um embate entre uma grande diversidade de personalidades diferentes para exercer algum tipo de liderança entre os desesperados. Há uma fanática religiosa, que vê no acontecimento uma mensagem divina, o líder nato, interpretado com vigor pelo sempre competente Thomas Jane, os rebeldes que se recusam a escutar idéias que não venham de suas próprias mentes e assim por diante. Cada um deles serve como combustível para uma situação que está prestes a explodir e a frágil linha que segura esse relacionamento não demora a arrebentar.
O Nevoeiro é um filme B em toda sua essência. Monstros alados, criaturas asquerosas, ambiente claustrofóbico. Os ingredientes estão todos lá. A diferença é que este filme B em particular é realizado com extremo capricho. Sem as amarras que prendem grande parte das obras de Hollywood, Darabont teve espaço para compassar sua obra conforme sua necessidade. Há momentos de respiro, onde o suspense impera absoluto, há momentos de ação intensa, onde o desespero é o senhor da razão, há momentos de pura emoção, em que cada personagem mostra sua verdadeira identidade.
Mas o grande diferencial de O Nevoeiro está escondido em seu desfecho, um dos mais ousados e perturbadores que o cinema americano já concebeu. Darabont é tão implacável em sua resolução que é quase impossível não arregalar os olhos com absoluta descrença diante de algo tão alarmante.
Não vá esperando o mesmo teor dos filmes anteriores de Darabont, mas se prepare para ser surpreendido. O Nevoeiro pode ser um filme B em espírito, mas é um filme B executado com extrema honestidade, sem grandes pretensões, que dá um banho em muitos monstrengos arrasa-quarteirões que invadem nossos cinemas todo o ano.