A Duquesa
(The Duchess, Reino Unido/ França/ Itália, 2008 )
Direção: Saul Dibb
Elenco: Keira Knightley, Ralph Fiennes, Hayley Atwell, Charlotte Rampling, Simon McBurney, Dominic Cooper, Aidan McArdle
Ser feliz. Desde os primórdios da civilização, esse, provavelmente, tem sido o objetivo do ser humano ao longo de sua existência. Essa é a promessa feita pela jovem e inocente Georgiana à mãe quando descobre que recebera uma proposta de casamento do Duque de Devonshire (Ralph Fiennes). Mas o que ela – e a grande maioria dos seres humanos – parece não perceber é que ninguém, até hoje, conseguiu encontrar uma receita para tal empreitada. Alguns acham que é o dinheiro, outros preferem poder, alguns se arriscam no amor, mas a verdade é que ninguém sabe. Isso porque a felicidade, assim como sua contrapartida, não são elementos que definem um estado constante de espírito. Não se pode ser feliz, e sim estar feliz. Esses sentimentos são passageiros como o tempo, e nós, passageiros desse tempo.
Essa meta ilusória é o suficiente para encher de esperança e empolgação uma puritana que passou grande parte da vida guardada embaixo das asas maternas. Quando finalmente se confronta com a realidade, o choque é enorme e inevitável. Para uma mente menos aventureira, isso seria o suficiente para lançá-la a uma rotina de submissão completa. Mas seu espírito inquieto a faz desafiar os protocolos impostos pela sociedade hipócrita em que se encaixou, transformando-a em uma personagem de extrema relevância para as mudanças que estavam por vir.
Ser o elemento de mudança é uma tarefa sofrida. Enfrentar toda uma comunidade em busca de um ideal é pedir para encarar as formas mais cruéis de rejeição e abandono que um ser humano pode suportar. Afinal, apesar de ser usada em alguns discursos mais engajados como algo benéfico, mudança é a última coisa que o ser humano procura, principalmente quando tudo corre bem. Mas a ingênua duquesa não desiste. Quando confrontada com a traição de seu marido bem embaixo de seu nariz, sua proposta reacionária vem como um soco na boca do estômago de uma sociedade acostumada a olhar para o outro lado quando o assunto é o adultério masculino. E a sua luta para propagar o conceito de liberdade incondicional também pega a nobreza desprevenida. É claro que uma pessoa solitária não consegue implementar mudanças radicais de forma instantânea, mas ajuda a plantar a primeira semente.
Ao assistir A Duquesa e testemunhar as diversas agruras que sua personagem é obrigada a suportar, é praticamente impossível não voltar a mente para cena em que a mesma divaga sobre a ilusão de liberdade. Gostamos de acreditar que somos seres livres para seguir o caminho que quisermos. Isso não deixa de ser verdade, até mesmo naquele conservadorismo da época. Mas o preço da liberdade é muito mais alto do que a maioria está disposta a pagar. As correntes de outrora deram lugar a elos mais abstratos e variados que, muitas vezes, nos prendem a uma situação indesejada. Mas a alternativa parece mais dolorosa.
A Duquesa é um típico filme de época que cai muito bem em uma realidade em que o videoclipe parece reinar até mesmo no cinema. Além de ser impecável em todos aqueles aspectos comuns ao gênero, como figurino e direção de arte, o filme acerta em cheio ao investir em planos mais abertos, onde o espectador consegue respirar todo o glamour daquele período, e em cenas mais reflexivas, onde o silêncio impera absoluto. A produção conta ainda com um elenco invejável, incluindo Keira “Sorriso de Pequinês” Knightley, que já se tornou uma especialista no comando de um espartilho, e o sempre competente Ralph Fiennes, que consegue alterar momentos de extrema ira com outros de pura serenidade sem que essas alterações percam a coerência.
Curiosamente, historiadores ingleses traçam uma herança genética entre a duquesa do filme e a falecida Lady Diana, elo que inclusive foi explorado pelo trailer britânico, como pode ser conferido abaixo. É como se no gene da família residisse um cromossomo que impelisse suas mulheres a quebrar as barreiras do conservadorismo, mesmo sob um sacrifício pessoal muito grande. O resultado são duas histórias igualmente trágicas, mas com repercussões extremamente positivas.
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