Na Mira do Chefe
(In Bruges, Reino Unido/Bélgica, 2008)
Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier, Thekla Reuten, Jordan Prentice
Vivemos a era da reciclagem. Com o prognóstico do fim do mundo cada vez mais próximo, a necessidade de reaproveitarmos os recursos ainda existentes aumenta exponencialmente. Infelizmente, o que era verdade apenas para metais, papéis e afins, hoje virou rotina também na indústria cinematográfica. Uma idéia original é um ítem precioso entre aqueles que querem se arriscar no mundo da sétima arte. Aqueles que a encontram, a protegem com extrema cautela e tentam espremer da mesma tudo o que ela tem para oferecer. Afinal, não se sabe nem quando nem se a próxima irá aparecer.
Pois marquem o nome de Martin McDonagh. Ganhador do Oscar de melhor curta-metragem em 2006 com o filme Six Shooter, ele marca a sua estréia como diretor de longas com um dos melhores filmes deste ano. Misturando na dose certa comédia, suspense e drama, ele constrói uma fábula deliciosamente inusitada sobre as aventuras de dois assassinos profissionais em uma pequena cidade do interior da Bélgica.
Colin Farrell vive o intrépido Ray, um aspirante a matador de aluguel que é enviado por seu chefe Harry (Ralph Fiennes), junto com o amigo Ken (Brendan Gleeson), à desconhecida cidade de Bruges depois de um serviço. O lugar é um recanto de turistas onde não se tem muito o que fazer a não ser ver monumentos medievais e passear de barco pelo canal que cruza a cidade. Para um integrante de
velha guarda como Ken, a experiência pode se tornar algo relaxante. Mas para o espírito inquieto de um jovem irlandês como Ray, o tédio que o lugar exala é o equivalente a uma viagem sem volta para o inferno. Enquanto esperam ordens de seu empregador, os dois passeiam pelos pontos turísticos, fazem amizades e inimizades com os mais diversos tipos – inclusive um anão - e até se arriscam no amor.
A capacidade de McDonagh de encontrar lógica e racionalidade nos elementos mais bizarros é assustadora. Tudo em In Bruges – me recuso a utilizar a péssima tradução brasileira – tem um propósito. Até mesmo aquelas cenas que parecem completamente injustificadas e gratuitas acabam fazendo sentido no final. Com o desenrolar da trama, a estranheza inicial dá lugar a um sorriso irreverente que se diverte com a constatação de que está diante de uma obra diferente. Uma obra que não tem medo de subverter alguns conceitos pré-determinados do público em troca de uma dose excessiva de originalidade.
A grata surpresa fica por conta da presença do pseudo-galã Colin Farrell nesta modesta produção, que não faz frente aos diversos filmes que já participou durante seu período em Hollywood. Depois de
surpreender com uma atuação comovente no ótimo O Sonho de Cassandra, de Woody Allen, o ator irlandês volta a mostrar seu talento no papel do inexperiente e atormentado Ray. Mesmo nos momentos mais extrovertidos, ele demonstra uma certa amargura no olhar. E o eterno coadjuvante Brendan Gleeson nos brinda com um de seus melhores trabalhos na pele de um homem cansado de viver lado a lado com a morte e que encontra na cidade desconhecida seu momento mais terno.
In Bruges é um filme que beira a utopia. Ele é um filme em que os criminosos têm princípios, os assassinos têm consciência, as imagens possuem uma pitada de bucolismo e o amanhã vem recheado com a esperança de um novo começo. Passeando entre o céu e o inferno, é em Bruges que cada personagem descobre para qual dos dois está destinado.
Tags: Brendan Gleeson, Colin Farrell, In Bruges, Ralph Fiennes
Outubro 20, 2008 às 12:36 pm
Fabão, vi nesse fds o filme do Robert de Niro e Al Pacino. Não perca seu tempo. É ruim demais.
Outubro 20, 2008 às 2:28 pm
Uma surpresa, em se tratando de dois monstros do cinema. Mas se Rogério Santos deu o seu veto, eu passo longe. Valeu pela dica.
Abraço.
Outubro 23, 2008 às 4:39 pm
Esse filme está no meu love film ha um tempinho já, vou mudar a prioridade pra chegar logo em casa. Essa semana assisti ao “El orfanato” (gostei) e ao Shaun of Dead (que voce havia indicado com o Simon Pegg) e achei ok. O filme romeno deve chegar em casa hoje. Vou assistir e depois comento aqui!
Abril 9, 2009 às 4:13 pm
Opa! Assisti, finalmente, In Bruges!
O bom de se morar fora do Brasil é que passamos a entender melhor algumas piadas. A cena em que o Ray tira um barato dos turistas obesos americanos é ótima (e o fato de eu já ter ido para Bruges, faz com que tudo tenha ainda mais sentido). A afeicao de Ray por anoes é genial, mas o ponto alto do filme é um diálogo, logo no comecinho, onde Ray e Ken discutem a razao por eles estarem em Bruges:
Ray – mas porque estamos em Bruges afinal?
Ken – a gente esta se escondendo…
Ray – mas é preciso vir até Bruges para se esconder? Da pra se esconder em Tottenham…
Ken – é verdade…
Ray – ou Coventry…
Humor ingles é muito bom!!!