O Grande Ataque

By fbarbanti

O Grande Ataque
(The Great Raid, EUA/Austrália, 2005)

Direção:  John Dahl
Elenco: Benjamin Bratt, James Franco, Connie Nielsen, Joseph Fiennes, Sam Worthington

O Grande Ataque é uma daquelas pequenas jóias que passam despercebidas pelo cinema e que acabam recebendo a atenção que merecem durante os garimpos habituais às prateleiras das locadoras. Não sei se o fraco desempenho, tanto em território brasileiro quanto no mercado internacional, se deve a uma fracassada campanha de marketing ou pelo fato de retratar um confronto relativamente desconhecido da segunda guerra mundial, mas a verdade é que esta produção está fadada a ser descoberta – e apreciada – por poucos. Uma injustiça, uma vez que este é um relato de verdadeiros heróis que amargam a vergonha da rendição e a humilhação suprema nas mãos do inimigo na busca de uma conquista mais louvável: a sobrevivência.

 Esses heróis não são os destemidos soldados que se voluntariam a uma missão arriscada para resgatar prisioneiros esquecidos no coração das Filipinas. Muito menos as enfermeiras e os comerciantes que contrabandeiam remédios e comida para o campo de concentração japonês. Curiosamente, quando os créditos finais começam a rolar, descobrimos que são exatamente essas pessoas que acabam premiadas por seus atos heróicos e altruístas. Mas o que ninguém parece perceber é que os verdadeiros guerreiros são os esfomeados, os humilhados, os enfermos, os abandonados que suportam os mais duros castigos em nome de um país que ordenou que se entregassem.

Depois de três anos vendo seus compatriotas morrerem diante de seus olhos, os poucos sobreviventes lutam contra a fome e contra as mais diversas doenças na esperança de serem resgatados por forças aliadas. A honra de cumprir essa tarefa cai nas mãos do Tenente Henry Mucci (Benjamin Bratt), um oficial que passou grande parte da guerra treinando um grupo de soldados que, até o momento, pouco combate havia testemunhado. Ele sabe que esta é a sua última chance de reconhecimento e para atingir seu objetivo, conta com a ajuda do Capitão Robert Prince (James Franco), um experiente estrategista capaz de organizar as mais ousadas missões. Os dois reúnem o grupo para realizar o ataque e partem em busca daquilo que consideram a recompensa suprema: a glória de saber que, de uma forma ou de outra, farão parte da história americana.

Só que a história não é feita apenas por aqueles que matam e morrem. Ela também reside nos corações daqueles que insistem em permanecerem vivos mesmo quando todas as forças conspiram contra eles. Eis uma maneira igualmente contundente de se atingir o inimigo. Essa é a tática do Major Gibson (Joseph Fiennes, um pouco deslocado com seu sotaque inglês). Mesmo com fome, sofrendo de malária e agüentando as mais diversas humilhações, ele condena qualquer tentativa de fuga que possa resultar na morte de um soldado. Para ele, mais importante do que escapar daquele local é sobreviver e testemunhar a queda de seu inimigo. Sua fonte de inspiração é a bela Margaret (Connie Nielsen), viúva de um soldado de seu pelotão pela qual sempre nutriu uma paixão platônica, mas que nunca a expressou abertamente por respeito ao companheiro. O sentimento é recíproco, e ela faz de tudo para garantir que seu amado sobreviva, fornecendo-lhe comida e remédios por meio de contrabando.

Este não é o típico filme de guerra de Hollywood, com explosões a cada segundo e metralhadoras cuspindo fogo de forma aleatória. Toda a ação se desenvolve no quarto final de filme e, mesmo assim, ela nunca descamba para o heroísmo exagerado, optando por um confronto sóbrio e autêntico. Durante o restante da história, o roteiro prefere voltar o seu foco para momentos mais reflexivos, em que seus personagens discorrem sobre suas ambições e inseguranças. Pena que o texto não dê espaço para todos, preferindo deixar alguns no anonimato. Quando se tornam vítimas de fatalidades, temos dificuldade de nos compadecer pois pouco os conhecemos.

A história que acaba se sobressaindo é a bela relação platônica entre a enfermeira e o prisioneiro. Eles nunca se encontram durante o filme. As poucas palavras que trocam são através de cartas sucintas e isentas de emoções. E a lembrança que têm um do outro parece ter se apagado depois de tanta morte e tanto sofrimento. Mesmo assim, o espectador nunca duvida do que sentem. E o curioso é que o mais nobre dos sentimentos parece só florescer nos períodos mais negros da história da humanidade.

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2 Respostas para “O Grande Ataque”

  1. Denise Neves Santos Disse:

    De certa forma eu entendo o porque de “O Grande Ataque” ter passado despercebido pelas bilheterias: esse filme foi feito depois de “Band of Brothers”. Tudo bem que o Band of Brothers nao foi nem filmado para o cinema, mas é, sem dúvidas, a melhor producao 2a guerra já feita até hoje.

    Eu diria que quase toda a fórmula desse filme é baseada no BoB: i) um comandante narra a história, de maneira sincera e humana; ii) o filme acompanha apenas um batalhao do inicio ao fim; iii) o batalhao é sempre “menos potente” que o inimigo, mas sempre ganha no final. Tudo bem que o item iii se dá pelo fato dos americanos estarem contando a história.

    Resumindo: “O grande ataque” é apenas mais um filme de guerra. Nao tao bom quanto o BoB (roteiro e producao), nao tao bom quanto “O resgate do soldado Ryan” (producao). Mas eu teria na minha prateleira (entre “A ponte do Rio Kwai” e o “Joyeux Joel” – que é 1a guerra mas é muito bom!).

  2. fbarbanti Disse:

    Acho que a grande diferença entre O Grande Ataque e toda essa leva de produções sobre a segunda guerra mundial, inclusive a mini-série Band of Brothers, é que nesses filmes, tudo é tratado com muita grandiosidade, ressaltando ainda mais o status de herói de seus personagens. Em O Grande Ataque, o meu sentimento é que o heroísmo residia mais naqueles que lutavam contra a fome e a malária. É claro que existe o confronto final, mas também sem a mesma grandiosidade dos filmes anteriores. Resumindo, concordo que Soldado Ryan e BoB são produções mais encorpadas, mas acho O Grande Ataque mais honesto.

    Um outro grande filme sobre a Segunda Guerra Mundial é um com o David Bowie chamado Merry Christmas Mr. Lawrence, de 1983. Vale a pena conferir.

    Beijos.

    P.S. – Joyeux Noel é um filmaço. Acho que mais filmes sobre a 1a guerra deveriam ser produzidos.

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