O Preço do Amanhã

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A ficção científica é um dos poucos gêneros do cinema em que se tem total liberdade para criar uma realidade completamente nova, onde as barreiras que controlam nosso universo são rompidas sem que esse ato gere um desconforto no público. Então, se um ser humano quer flutuar como se estivesse em um mundo sem gravidade, como acontece em Matrix ou A Origem, não há nada de errado com isso, desde que essa ruptura tenha um motivo. O ponto forte dessa flexibilidade é que permite ao cineasta usar toda a sua criatividade em prol desse novo mundo. O ponto fraco é que, muitas vezes, o conceito por trás desse universo fictício se torna melhor do que a história que está sendo contada. É o que acontece em O Preço do Amanhã.

Em um futuro onde as pessoas param de envelhecer quando completam 25 anos de idade, o tempo é a nova unidade monetária. A partir dessa data, você ganha apenas mais um ano de vida. Para viver mais, é preciso adquirir tempo. Só que esse tempo também é utilizado para cobrir os custos de vida. Se você quer comprar um café, você paga com minutos. Uma passagem de ônibus, algumas horas. Aluguel, alguns dias. Essa realidade ocasiona uma disparidade social gigantesca, onde os pobres vivem pouco tempo além dos seus 25 anos enquanto os ricos se tornam imortais.

É nesse mundo que vive Will Salas (Justin Timberlake), um jovem que leva a expressão “um dia de cada vez” ao pé da letra. Sem saber que surpresa o futuro lhe reserva, sua realidade é uma de constante incerteza. Até o dia em que salva a vida do advogado Henry Hamilton (Matt Bomer), um ricaço frustrado com sua existência repleta de monotonia que anseia pelo dia de sua morte. De acordo com sua teoria, a imortalidade é um benefício muito caro. E a única forma de alguns poucos conseguirem esse benefício é se inúmeros outros morrerem. Enquanto os dois dormem, o advogado presenteia Will com mais de um século de vida, deixando apenas uma mensagem antes de morrer: “não desperdice o meu tempo”. O jovem então decide desmascarar essa conspiração que está causando a morte daqueles ao seu redor enquanto tenta fugir do incansável Raymond Leon (Cillian Murphy), um policial responsável pela harmonia temporal desse universo.


A inventividade do cineasta Andrew Niccol, responsável pelos roteiros do ótimo Gattaca e do excepcional O Show de Truman, se faz presente nos pequenos detalhes que constituem o mundo que desenvolve. Por exemplo, os habitantes do gueto, que vivem com o fantasma da falta de tempo pairando sobre suas cabeças, têm o costume de comer depressa, correr em vez de andar e dormir pouco. Cada segundo conta quando se vive em uma constante contagem regressiva, o que não acontece com os milionários. A cena em que uma prostituta oferece “dez minutos por uma hora” é simplesmente hilária. Existe até uma brecha para se criticar o sistema capitalista onde, para que alguns sejam bilionários, vários precisam morrer de fome. Aqui, os ricos estão literalmente matando os pobres, roubando dos mesmos o pouco tempo que têm ao aumentar seu custo de vida.

Pena que Niccol tenha sentido a necessidade de inserir uma trama de ação pouco convincente e mal desenvolvida em sua história. Se o roteiro tivesse se limitado a explorar os dilemas filosóficos desse universo fascinante, ele poderia se tornar uma obra tão cultuada quanto Blade Runner, tamanho o espaço para debate que ele gera. Mas ao colocar o fraquinho Justin Timberlake e a insossa Amanda Seyfried correndo para cima e para baixo com uma arma na mão sem saber exatamente o que almejam alcançar, o filme perde o foco e se transforma em uma obra arrastada e tediosa.

2 Coelhos

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O maior benefício que os videoclipes acabam por trazer para o cinema é a liberdade que se tem para experimentar. Em um clipe, não existem limites para a criatividade de um cineasta. Pode-se abusar de sequências computadorizadas, animações tridimensionais e outros recursos digitais porque não há a necessidade de se contar uma história coerente. E esses experimentos, mais tarde, podem ser utilizados de forma mais pontual pela sétima arte para criar cenas exuberantes que deixam o espectador com o queixo caído. O perigo, muitas vezes, é que alguns desses realizadores esquecem que estão lidando com uma nova linguagem e que precisam se preocupar com outros aspectos relacionados ao cinema, como roteiro e atuação.

Em 2 Coelhos, longametragem de estréia do publicitário Afonso Poyart, o inexpressivo Fernando Alves Pinto vive o perturbado Edgar, um jovem incomum que elabora um rebuscado plano para fazer aquilo que ele considera como justiça. Depois de se envolver em um acidente de carro que vitimou duas pessoas inocentes, ele resolve assumir as rédeas de um ambicioso estratagema que colocará bandidos impiedosos e políticos corruptos em uma explosiva rota de colisão.


O fragmentado roteiro do próprio Poyart tenta brincar de ser inteligente com suas idas e vindas onde a frágil trama é gradativamente exposta ao público. Mas a estratégia acaba se virando contra seu realizador quando, em diversos momentos, a necessidade de voltar ao passado para explicar alguma reviravolta quebra de forma vertiginosa o ritmo acelerado que tenta imprimir. Além disso, muitas personagens parecem ter comportamentos erráticos, que não condizem com sua natureza. Caco Ciocler, por exemplo, interpreta um professor idealista que, em uma cena, discursa sobre a corrupção que envenena o Brasil para, na próxima cena, empunhar uma arma e trocar tiros com bandidos para ajudar a pessoa que matou sua família.

A direção carregada de Poyart opta por fazer um salada de frutas visual, onde linguagens diferentes se misturam de forma gratuita e arbitrária, sem nenhum propósito para a história. As referências vão desde a super câmera lenta usada em 300 até animações tridimensionais que lançam o protagonista em um ficcional videogame ou em mangás japoneses. Quando o vilão da história manda buscar sua espada samurai de seu carro, é quase impossível não enxergar a influência Tarantina na sequência. Além de não trazer nenhum benefício para a história, o uso excessivo desses artifícios dá a impressão que o diretor tentou camuflar os enormes furos de seu roteiro com inserções aleatórias de ícones da cultura contemporânea.

Detecta-se, em 2 Coelhos, a honestidade de um diretor que quer trazer algo de novo e de diferente para um cinema brasileiro que, cada vez mais, valoriza a importância de produções comerciais. Pelos seus esforços, ele até merece uma menção honrosa. Mas, depois de filtrados as boas intenções e o excesso de estilo visual, o que resta é uma história frágil que padece com o passar do tempo e que, em vez de matar os dois coelhos do ditado, acaba por deixá-los escapar por entres as lacunas que formam sua história.

À Beira do Abismo

Ir ao cinema é um exercício de perdão. Quando opta-se por gostar ou não de um novo filme, o que na verdade está se fazendo é aceitar ou não seus erros e fragilidades. Assim como acontece com o ser humano, que se ama apesar dos defeitos e não pelas qualidades, o mesmo pode ser dito em relação à sétima arte (ou qualquer outra).

A dura realidade é que não existe uma obra perfeita. Quando passado o pente fino, qualquer produção está sujeita à natureza falha de seus realizadores. Quantas vezes vê-se alguém elogiando a fotografia ou a direção de um determinado filme enquanto o roteiro e a história são estrategicamente ignorados? Costuma-se ser mais compreensivo com um cineasta que figura na sua lista de favoritos, perdoando eventuais deslizes, do que com outros mais anônimos. Muitas vezes elogia-se seu trabalho de forma até exagerada só por ser o mais novo projeto de um aclamado diretor enquanto se é implacável com outras obras que mereciam um pouco mais de tolerância e imparcialidade.

À Beira do Abismo é um filme muito fácil de se criticar. Ainda não li nenhuma matéria sobre o mesmo, mas já consigo imaginar a quantidade de resenhas negativas que ele receberá. E muito desses ataques se devem mais a uma resistência de se elogiar um filme de entretenimento puro do que a uma autêntica insatisfação com a obra. É como se as pessoas se sentissem culpadas de se divertir com um espetáculo tão raso e superficial. E é isso que À Beira do Abismo entrega aos espectadores que estiverem dispostos a passar por cima de uma série de improbabilidades contidas em seu roteiro: um espetáculo divertido e envolvente.

Um homem misterioso (Sam Worthington, de Avatar) aluga um quarto de um luxuoso hotel em Nova York e pede um generoso prato de café da manhã. Logo em seguida, ele limpa o quarto de qualquer vestígio de suas digitais, abre a janela e se posiciona no parapeito do edifício, ameaçando se matar. A polícia em pouco tempo cerca o local e uma negociadora (Elizabeth Banks) é chamada para tentar convencê-lo a não se jogar. O que ela não sabe é que o suposto suicida, na verdade, é o idealizador de um elaborado plano que tem como principal objetivo provar sua inocência de uma acusação de roubo que lhe custou uma pena de 25 anos de prisão.


Fica claro, desde o começo, que À Beira do Abismo não é uma produção para se levar a sério. Seu objetivo parece ser o de resgatar o bom humor e a tensão dos filmes policiais da década de 80, sem nenhum compromisso com o realismo. Para isso, investe em um roteiro tenso e intrigante, onde problemas são expostos e resolvidos com grande originalidade e onde o dinamismo é tão intenso que, apesar da história se passar em um ambiente limitado, a ação aparenta ininterrupta.

É claro que o filme está infestado de clichês, como a policial que possui um trauma com um antigo caso onde uma pessoa acabou se matando ou um canastrão vilão (na pele de um caricato e envelhecido Ed Harris) que personifica a malignidade do capitalismo americano. Há até um momento deus ex machina, onde nosso herói é salvo, mais de uma vez, por intervenções que mais parecem obras de um ser superior. Mas, apesar de todos seus defeitos, eu não posso negar que fiquei entretido durante a sessão. O que mais pode se exigir de uma obra como essa? Afinal de contas, ninguém é perfeito.

Fora da Lei

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O que fazer quando o principal filme de sua carreira concorre a uma série de prêmios internacionais, incluindo o Oscar de filme estrangeiro e a Palma de Ouro de Cannes? Para o diretor francês de origem argelina Rachib Bouchareb a resposta é muito simples: não se mexe em time que está ganhando. Depois do sucesso do ótimo Dias de Glória, que mostrava a contribuição de soldados africanos ao exército francês durante a segunda guerra mundial, ele resolveu recorrer aos mesmos atores, dar a suas personagens os mesmos nomes e revisitar o tema do preconceito na França do pós-guerra. E a fórmula parece ter dado resultado, pelo menos no que diz respeito a prêmios. Apesar de repetir as indicações de seu antecessor, Fora da Lei é um filme inferior que sofre com a falta de foco e com as grandes elipses de seu roteiro.

Quando os três irmãos Saïd (Jamel Debbouze), Messaoud (Roschdy Zem) e Abdelkader (Sami Bouajila) são expulsos, ainda crianças, da terra que seus antepassados nasceram e morreram, o sentimento é a de perda de identidade. De não pertencer a lugar nenhum. Anos mais tarde, esse mesmo sentimento se instala quando seu país, a Argélia, luta para se livrar da colonização francesa e se estabelecer como uma nação independente. Messaoud vai para a guerra, defender seus colonizadores. Saïd se muda para a França com a mãe onde ganha dinheiro com atos ilícitos. Abdelkader vai para a prisão depois de participar de uma passeata reivindicando a liberdade argelina.

Os três irmãos se encontram anos mais tarde e, liderados por Abdelkader, decidem iniciar uma revolução armada em busca da independência da Argélia. Saïd é o mais reticente por acreditar que a melhor forma de atingir o inimigo é ganhar dinheiro e prestígio. Seu sonho é colocar um argelino como campeão de boxe francês. Mas os outros dois irmãos possuem ideais mais patrióticos e não pouparão esforços para garantir a liberdade de sua nação, nem que para isso sujem as próprias mãos com o sangue de seus opressores.


Há de se aplaudir a apurada produção dessa obra com ambições épicas. Em muitos momentos, ela se assemelha aos filmes de gângster de Scorsese, com sua reconstituição de época minuciosa e cenas de ação vertiginosas. Os atores estão à vontade em papéis que dominam sem muito esforço e a fotografia investe em uma atmosfera meio envelhecida, com um tom desbotado que nos faz viajar no tempo. Mas se tecnicamente o filme é impecável, o mesmo não pode ser dito do roteiro.

Roteiro, muitas vezes, funciona como uma melodia. Para que a mesma funcione, é preciso saber quando estender uma nota, quando fazer uma pausa, quando acelerar o ritmo. Qualquer falha em um desses elementos e o resultado é um produto inaudível, que nossos cérebros rejeitam por não fazer sentido. É aí que Bouchareb perde o controle de seu projeto. Apesar de possuir uma história promissora e bem intencionada, as elipses que insere em sua trama parecem engolir os momentos mais interessantes para investir em outros sem muita importância aparente. Por exemplo, o fato de Messaoud e o inspetor que o persegue terem lutado juntos durante a guerra poderia ter sido melhor trabalhado para intensificar o conflito de cada uma dessas personagens. O que se vê é apenas uma cena isolada que fracassa ao estabeler esse elo entre os dois. O enriquecimento ilícito de Saïd também parece repentino e arbitrário. Escolhas como essas acabam por enfraquecer as personagens e afetam até mesmo o ritmo do filme por diminuir o interesse que o espectador desenvolve pela história.

Não dá para negar que Rachid Bouchareb é um cineasta excepcional. O controle que possui sobre a imagem e a capacidade de elaborar sequências grandiosas o colocam como um dos grandes diretores europeus em atividade. Só lhe resta agora a humildade para delegar o roteiro para pessoas mais gabaritadas que possam transformar sua história em algo mais envolvente. Quem sabe, quando isso acontecer, ele pode finalmente abocanhar o Oscar e a Palma de Ouro que por duas vezes escaparam de suas mãos.

A Separação

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O fim de um casamento não é uma visão muito gratificante. A experiência se torna ainda mais trágica quando nota-se que ainda existe amor entre as partes envolvidas. É o que acontece na separação de Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami), protagonistas dessa produção iraniana ganhadora do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Enquanto os dois bradam incansavelmente para um juiz que definirá o futuro do casal, fica evidente que ainda pulsa um sentimento latente entre eles. O próprio juiz constata essa realidade quando afirma que aquele não é um problema grave.

Ela quer aproveitar um visto recém obtido para buscar oportunidades em um outro país. Ele insiste que não pode acompanhar a esposa por estar cuidando de seu pai, que sofre de Alzheimer. Incapazes de chegar a um consenso, ela opta por sair de casa enquanto é obrigada a deixar a filha Termeh (Sarina Farhadi) sob os cuidados do pai. Ele, por sua vez, se vê forçado a contratar os serviços de Razieh (Sareh Bayat) para olhar o adoecido patriarca. Grávida, Razieh trabalha para complementar a renda de sua casa que sofre pelo fato do marido Hodjat (Shahab Hosseini) estar desempregado. Um incidente inesperado lança essas personagens em um caldeirão tempestuoso que tranformará a vida de todos em um verdadeiro inferno.

Devo confessar que não sou um grande fã do cinema iraniano. Sua tendência à prolixidade e a temas essencialmente regionalistas costumam alienar um amante de roteiros universais como eu. Muitas vezes, o cinema do oriente médio acaba servindo mais como um retrato social do que como entretenimento. Para minha surpresa, A Separação consegue a façanha de conciliar as duas coisas, construindo um inquieto panorama da sociedade iraniana sem ignorar a necessidade de imprimir um ritmo intenso e envolvente.


O principal mérito do roteiro do cineasta Asghar Farhadi é a sua capacidade de manter o espectador sempre em cheque, na expectativa de que algo está para acontecer. Apesar de dramático, muitas vezes tem-se a impressão de estar se assistindo a um filme de suspense graças à tensão incansável que paira durante toda a projeção e ao excepcional trabalho dos atores, que possuem uma afinação invejável. A pequena estreante Sarina Farhadi – filha do diretor – que interpreta a jovem Termeh brilha como uma garota inocente sendo obrigada a amadurecer de forma acelerada.

Existe uma manjada parábola sobre um escorpião que morre afogado ao matar uma tartaruga que o ajudava a atravessar um rio sob o pretexto de ser sua natureza. Ela já foi usada de forma descabida durante uma infinidade de produções com a pretensão de adicionar profundidade ao enredo. Mas, curiosamente, é quase impossível não se lembrar dela enquanto se assiste a esse filme. Se suas personagens fossem desapegadas o suficiente para ignorar a própria natureza, talvez a vida delas teria tomado um curso diferente. A oportunidade se apresenta com frequência para que elas assim o façam, mas seu orgulho ou impetuosidade acabam falando mais alto e elas acabam pagando um alto preço por isso.

O final… Bem, o final é típico de um filme iraniano. Mas Farhadi não conseguiu evitar. Faz parte de sua natureza.

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