Amor Sem Escalas
(Up in the Air, EUA, 2009)
Direção: Jason Reitman
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Amy Morton, Melanie Lynskey
Em apenas três filmes, o jovem cineasta Jason Reitman já superou – em qualidade – a vasta cinematografia do pai Ivan, criador da série Os Caça-Fantasmas. Em Obrigado por Fumar ele aponta uma ácida câmera para a indústria do lobby político, mostrando como um inescrupuloso defensor do conglomerado tabagista consegue racionalizar seu trabalho, por mais condenável que ele pareça. Em Juno, ele faz uma pequena ode à juventude e todos seus emaranhados, contando os conflitos de uma jovem grávida que quer doar seu filho para um casal de classe média. Agora, em Amor Sem Escalas, ele aborda a impessoalidade da vida moderna e a solidão que muitos de nós somos obrigados a suportar em um mundo onde o contato humano é cada vez mais escasso.
O sempre carismático George Clooney vive o melancólico Ryan Bingham, um executivo cuja especialidade é a de demitir pessoas para, usando suas próprias palavras, empresários que são muito covardes para fazê-lo eles mesmos. Ele passa pelos apertados corredores das empresas de seus clientes e a atmosfera sombria é tão densa que seria possível cortá-la com uma faca. Só que sua vasta experiência no ramo o possibilita a falar sempre a coisa certa para evitar reações mais passionais dos futuros desempregados. Sua vida é marcada pela falta de rotina e pela ausência de qualquer tipo de apego pessoal à empresa que está atendendo. Sua realidade consiste de uma série de saguões de aeroportos, carros alugados e quartos de hotéis. Ele não possui absolutamente nada que ele possa chamar de seu.
E é assim que ele gosta de viver. Como ele mesmo costuma dizer nas pequenas palestras motivacionais que administra, movimento é vida. Ele não quer saber de ficar parado, entrando no mesmo prédio, olhando para a mesma sala, vislumbrando a mesma vista de sua janela para o resto de sua vida. A falta de uma casa, um ponto de retorno, é o que torna a sua vida suportável. Ele se alimenta da melancolia e da solidão que constituem sua existência. Como ele mesmo gosta de proclamar em suas palestras, sua vida cabe em uma mochila.
Mas tudo está prestes a mudar com a chegada da jovem Natalie Keener (Anna Kendrick), uma ambiciosa recém-formada que seguiu o namorado até a pequena cidade do interior do estado de Nebraska e que tem um plano revolucionário para cortar os custos da empresa em que Bingham trabalha. Em vez de gastos com viagens, hotéis e aluguéis de carro, tudo seria realizado através da internet. É claro que essa perspectiva é quase que uma morte para Bingham, que se acostumou com o glamour da vida na “estrada”.
É engraçado como o seu chefe, interpretado pelo sempre engraçado Jason Bateman, que também fazia parte do elenco de Juno, usa a palavra grounded para descrever a atual situação de Bingham, uma palavra com duplo sentido no contexto do filme. Ao mesmo tempo em que permanecerá no chão (on the ground), sem poder voar para os vários destinos que compunham sua vida profissional, o termo também é usado no sentido de castigo. É como se ele estivesse sendo punido por uma longa e infrutífera existência.
Mas ele não vai aceitar essa nova imposição sem uma briga. Ele convence seu chefe a deixá-lo continuar sua rotina, mas ele precisa levar a jovem contratada para que ela ganhe experiência. Durante essa jornada, ele se envolve com a bela Alex (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), uma executiva que também vive uma realidade nômade e que encontra em Bingham uma distração para a solidão que é a sua vida.
É quase impossível não se sentir atraído ao personagem de Clooney. Ele possui apenas um grande objetivo na vida: o de alcançar um determinado número de milhas voadas. Fora isso, não há mais nada que o prenda a uma determinada realidade. Sua lealdade se restringe a companhias aéreas e hotéis de sua preferência. Existe uma algo de intoxicante nesse tipo de liberdade. Algo que nos faz querer, nem que por um breve momento, experimentar a completa ausência de compromissos e obrigações.
É evidente que tal estilo de vida tem o seus efeitos colaterais. Quando finalmente volta de uma longa jornada, o que ele acha é uma casa vazia, sem ninguém para fazer-lhe companhia. Seu vício pela vida na estrada é tão intenso que sua geladeira é recheada de pequenas garrafas de uísque, iguais as que se encontram no frigobar de um quarto de hotel. E quando tenta se oferecer para levar a irmã até o altar no dia do seu casamento, é confrontado com a dura realidade de que não é merecedor dessa honraria. É triste testemunhar esse grau de solidão. A ausência de contato humano tem um efeito lento mas devastador sobre a mente humana.
Em um determinado momento, o personagem de George Clooney é chamado de parêntese, um pequeno intervalo das pressões que constituem nossa vida. O mesmo poderia ser dito sobre Amor Sem Escalas. Com um roteiro de uma inteligência assustadora, diálogos extremamente aguçados e atores no auge de sua forma, muitos poderiam dizer que ele é uma boa distração. Mas após uma análise mais minuciosa, percebe-se que, assim como acontece com seu personagem, existe algo de mais profundo e redentor escondido nas entrelinhas. Algo que, apesar de sua simplicidade, o coloca nos rol dos pequenos clássicos modernos que compõem a cinematografia contemporânea dos Estados Unidos.
Tinha que Ser Você
Vejamos o caso de Harvey Shine (Dustin Hoffman), um compositor que passou a vida se dedicando a uma profissão que não gosta – ele escreve músicas para jingles – enquanto sua esposa e filha o abandonavam para viver em Londres. Hoje, depois de muitos anos longe da filha, ele viaja para o velho continente a fim de vê-la caminhar até o altar. Só que não do seu lado, como manda o figurino, mas do lado de seu padrasto Brian (James Brolin), que esteve mais presente na vida da jovem noiva. Para fechar com chave de ouro um dia melancólico, ele recebe a notícia de que não precisa ter pressa para voltar ao trabalho, pois já não tem um emprego.
O encontro de duas almas tão perdidas é o ponto de partida da comédia romântica mais simpática do ano. Enquanto passeiam pelas sempre fotogênicas ruas de Londres, eles aproveitam para se conhecer, para exorcizar seus demônios internos e para analisar os motivos que os levaram ao ponto em que se encontram hoje. Mas sem nunca perder o bom humor e a esperança de que suas vidas podem um dia mudar.
Amantes
Tentar explicar porque Amantes, novo filme de James Gray, que antes já havia realizado o ótimo Os Donos da Noite, despertou esse sentimento em mim é um exercício de futilidade. Poderia elogiar a comovente interpretação de Joaquin Phoenix ou a presença hipnotizante da bela Vinessa Shaw. Poderia discorrer sobre a simplicidade de um roteiro que aborda um dos temas mais explorados do cinema sem perder o frescor e a autenticidade. Poderia ir mais além e enaltecer a atmosfera que transpira melancolia ou o final que transborda esperança. Mas a realidade é que, se assim o fizesse, incorreria no mesmo erro que milhares de críticos – este que vos escreve incluso – cometem a cada resenha.
Não há nada de intelectual ou lógico sobre o ato de gostar ou não de um filme. Não existe nenhuma fórmula matemática que serve de diretriz para que uma obra-prima seja realizada. A arte, em qualquer uma de suas formas, nunca deve buscar a primazia pois ela é subjetiva em sua natureza. Apontar uma ou outra como exemplares únicos e extraordinários é tentar conformar o mundo em um plano em que todos concordam com a mesma opinião. Não existe unanimidade quando o assunto é a análise de uma obra de arte. E se um dia surgir essa obra unânime, eu prefiro não estar perto para conhecê-la.
A trama de Intrigas de Estado gira em torno de uma investigação envolvendo a assistente de um congressista, interpretado por Ben Affleck – talvez o único grande erro de casting do filme – que é encontrada morta depois de um aparente suicídio. Rumores de um suposto caso amoroso entre o político e a assistente rondam os corredores do Congresso e o assunto acaba parando na mesa de Cal McAffrey (Russell Crowe, excelente como sempre), antigo amigo do congressista. Junto com uma repórter novata (Rachel McAdams), McAffrey inicia uma busca desenfreada para encontrar a verdade por trás da morte da moça, que pode envolver pessoas do mais alto escalão do governo americano.
Baseado em uma aclamada minissérie britânica, Intrigas de Estado sofre com a árdua tarefa de resumir seis horas de material em duas horas de projeção. Principalmente em sua meia hora final, em que o filme parece acelerar há uma velocidade incoerente com o ritmo cadenciado que apresentara até então. Mesmo assim, é um filme envolvente, intrigante e repleto de pequenas reviravoltas que devem deixar o espectador satisfeito até o final. Além do mais, não dá para negar que é uma delícia assistir a uma produção que parece tentar resgatar o espírito dos clássicos filmes de jornalismo que marcaram os anos 70 e 80, como Todos os Homens do Presidente, Síndrome da China e Ausência de Malícia.
Um Ato de Liberdade
O grande mérito de Um Ato de Liberdade é que ele não se limita a mostrar seus protagonistas como meras vítimas de um crime inimaginável. Passado o luto e a dor da perda, o que se vê é um grupo determinado a sobreviver a qualquer custo. Nem que para isso tenham que brigar por comida, roubar um velho camponês ou cometer atos de pura covardia, como o de linchar um soldado desarmado. Afinal, esta é uma história de seres humanos, sujeitos aos mesmos sentimentos mortais que a maioria de nós. Sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme, de vontade de vingança.
momentos de uma estética deslumbrante, como na cena que mostra a neve caindo sobre a celebração de um casamento. A direção de arte e o figurino prezam pela simplicidade, uma escolha que se mostra acertada e coerente. E o elenco não poderia ser melhor, principalmente Liev Schreiber no papel do irmão mais impulsivo e Jamie Bell (mais conhecido como Billy Elliot) como o caçula, obrigado a amadurecer mais rápido do que o normal.