
Intrigas de Estado
(State of Play, 2009, EUA)
Direção: Kevin Macdonald
Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis
Em um mundo marcado pela invasão da internet e suas formas variadas de difusão da informação, parece que não existe mais espaço para o bom e velho jornal. Afinal, por que esperar o dia seguinte para ler uma matéria que está há um clique de distância de seus olhos? O mesmo pode ser dito sobre o personagem de Russell Crowe em Intrigas de Estado. Quando as grandes estrelas dos meios de comunicação são os blogueiros que conseguem, com mais agilidade, estabelecer contato com uma quantidade maior de leitores, qual a serventia de um repórter investigativo que parece preso há um passado em que uma caneta era o único objeto que se precisava ter em mãos para escrever uma boa história?
Esse paralelo também pode ser traçado quando falamos de filmes como Intrigas de Estado. Em uma Hollywood onde o grande alarde vai para os filmes recheados de efeitos especiais, é difícil encontrar histórias que conseguem entreter o espectador sem ofender seu bom senso e seu bom gosto. Roteiros afiados com bons diálogos e uma trama envolvente parecem não ter mais mercado. E quando surgem, vêm como um sopro de ar fresco que resgata nossa esperança de que ainda existe vida inteligente na indústria cinematográfica.
A trama de Intrigas de Estado gira em torno de uma investigação envolvendo a assistente de um congressista, interpretado por Ben Affleck – talvez o único grande erro de casting do filme – que é encontrada morta depois de um aparente suicídio. Rumores de um suposto caso amoroso entre o político e a assistente rondam os corredores do Congresso e o assunto acaba parando na mesa de Cal McAffrey (Russell Crowe, excelente como sempre), antigo amigo do congressista. Junto com uma repórter novata (Rachel McAdams), McAffrey inicia uma busca desenfreada para encontrar a verdade por trás da morte da moça, que pode envolver pessoas do mais alto escalão do governo americano.
Baseado em uma aclamada minissérie britânica, Intrigas de Estado sofre com a árdua tarefa de resumir seis horas de material em duas horas de projeção. Principalmente em sua meia hora final, em que o filme parece acelerar há uma velocidade incoerente com o ritmo cadenciado que apresentara até então. Mesmo assim, é um filme envolvente, intrigante e repleto de pequenas reviravoltas que devem deixar o espectador satisfeito até o final. Além do mais, não dá para negar que é uma delícia assistir a uma produção que parece tentar resgatar o espírito dos clássicos filmes de jornalismo que marcaram os anos 70 e 80, como Todos os Homens do Presidente, Síndrome da China e Ausência de Malícia.
Durante os créditos finais, assistimos a uma sequência de imagens mostrando a arte por trás da publicação de um jornal. São imagens tão honestas e, ao mesmo tempo, tão obsoletas que beiram a poesia. São imagens que transmitem uma mistura de medo e saudades de uma época que não existe mais. São imagens que encontram paralelo em uma infinidade de outras situações do mundo atual. E talvez por isso, Intrigas de Estado seja um filme tão interessante. Exatamente por, assim como o jornal, resistir aos avanços tecnológicos e mostrar que a verdadeira qualidade do filme está em sua alma. Como já diria a personagem de Rachel McAdams em um determinado momento da trama, este é um filme para deixar marcas de tinta nas mãos daqueles que o assistem.
Um Ato de Liberdade
O grande mérito de Um Ato de Liberdade é que ele não se limita a mostrar seus protagonistas como meras vítimas de um crime inimaginável. Passado o luto e a dor da perda, o que se vê é um grupo determinado a sobreviver a qualquer custo. Nem que para isso tenham que brigar por comida, roubar um velho camponês ou cometer atos de pura covardia, como o de linchar um soldado desarmado. Afinal, esta é uma história de seres humanos, sujeitos aos mesmos sentimentos mortais que a maioria de nós. Sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme, de vontade de vingança.
momentos de uma estética deslumbrante, como na cena que mostra a neve caindo sobre a celebração de um casamento. A direção de arte e o figurino prezam pela simplicidade, uma escolha que se mostra acertada e coerente. E o elenco não poderia ser melhor, principalmente Liev Schreiber no papel do irmão mais impulsivo e Jamie Bell (mais conhecido como Billy Elliot) como o caçula, obrigado a amadurecer mais rápido do que o normal.
Star Trek
O filme começa com o nascimento do lendário capitão James Tiberius Kirk, papel imortalizado por William Shatner, substituído aqui pelo canastrão Chris Pine. Filho de um comandante que sacrificou sua vida para que o filho e a esposa sobrevivessem, Kirk vive assombrado pela imagem heróica que o pai carrega. Depois de vagar sem rumo por um tempo, o jovem rebelde resolve se alistar e honrar o nome da família. Durante seu período de treinamento, acaba conhecendo as pessoas que mais tarde formariam a tripulação da mitológica nave Enterprise, incluindo o Sr. Spock (Zachary Quinto), o Dr. McCoy (Karl Urban), o piloto Hikaru Sulu (John Cho), o engenheiro Scotty (Simon Pegg), a oficial Uhura (a belíssima Zoe Saldana) e o tenente russo Pavel Chekov (Anton Yelchin). Quando uma nave desconhecida, comandada pelo perturbado Nero (um irreconhecível Eric Bana), aparece na órbita terrestre com a intenção de criar um buraco negro e destruir toda forma de vida do nosso planeta, cabe à trupe interestelar usar toda sua criatividade e inteligência para impedir os planos do ensandecido alienígena.
É claro que Star Trek foi feito para os nostálgicos fãs do seriado e, certamente, serão eles os que melhor aproveitarão as referências espalhadas ao longo de sua interessante trama. Mas não dá para negar que Abrams, junto com seus roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman, conseguiram construir um enredo tão intrigante e charmoso que até mesmo aqueles que nunca sequer passaram perto de um episódio da série poderão se deliciar sem culpa. Ao mesmo tempo, o filme dificilmente escapará das comparações com o original. E nesse ponto, os fãs da série provavelmente sentirão falta dos embates filosóficos entre Spock e Kirk, que aqui mais parecem caprichos de dois jovens tentando impressionar uma mulher, ou as discussões entre o capitão e o engenheiro Scotty, que aqui foram reduzidas a algumas palhaçadas do esforçado Simon Pegg. Mas durante um processo de rejuvenescimento de uma obra, algo sempre se perde ao longo do caminho.
Quem Quer Ser um Milionário?
A história que conta é recheada de elementos dignos dos mais lacrimejantes dos melodramas. Mas o que surpreende é que Danny Boyle não se apega a esse sofrimento para construir uma história densa e sombria. Pontuado por um otimismo exacerbado e constante, o diretor inglês opta por elaborar uma pequena fábula, como as que Charles Dickens fez em Oliver Twist e David Copperfield, onde o importante não é o sofrimento e sim a fé que nos faz superá-lo. O resultado é uma pequena celebração à vida que já rendeu inúmeras premiações, inclusive o Oscar de melhor filme, e uma bilheteria surpreendente em território americano, principalmente por se tratar de um filme falado boa parte em híndi, um dos vários dialetos indianos.
Slumdog Millionaire
O Lutador
Depois de uma luta um pouco mais sangrenta do que o habitual, Randy sofre um ataque cardíaco e vai parar no hospital com uma ponte de safena como lembrança. Durante o período de recuperação, Randy percebe que tem uma vida vazia e solitária e tenta resgatar as poucas pessoas que ainda fazem parte de seu cotidiano. Entre elas está a rebelde Stephanie (Evan Rachel Wood), filha de Randy que foi abandonada pelo brutamontes ainda criança e que teve pouco contato com o pai durante sua vida. Mas a pressão dos fãs e a dificuldade de se relacionar com as pessoas fora de seu universo servem de estopim para que ele tente se aventurar novamente nos ringues.
É claro que nada disso funcionaria sem uma direção correta. Depois de surpreender o mundo com o estranho Pi e o angustiante Réquiem para um Sonho, e decepcionar com o insosso A Fonte da Vida, o americano Darren Aronofsky volta a mostrar porque está no time dos melhores diretores da atualidade. Com uma mão leve e um controle invejável de seus atores, ele constrói uma história honesta e comovente, sem cair na pieguice. Em uma cena em particular, o diretor traça um paralelo entre a vida como atendente de supermercado e a de um lutador profissional de forma extremamente criativa. Minha única ressalva vai para o fim muito apoteótico, que não condiz com a simplicidade que exala durante o resto da projeção. 